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terça-feira, 21 de julho de 2015

Quarenta!



Estranhamente, acordei no dia 16 de julho da mesma forma como acordara nas noites anteriores. Ainda tinha duas pernas, dois braços, dois olhos e todo o resto do corpo visível. Levantei-me e fui conferir no espelho e notei a mesma cara inchada e amassada de todas as manhãs. A preguiça era a mesma e os bocejos tão frequentes quanto antes. Não contente, despi-me de toda roupa para conferir se tudo permanecia no lugar e no formato habitual. Nada havia mudado, nem para melhor e nem para pior. Se não houve mudança física, então só poderia ter havido mudança mental. Foi a hipótese que veio a minha cabeça.

Fui tomar café pensando nas teorias de aprendizagem e suas derivações para o conhecimento da memória de curto, médio e longo prazo. Fisicamente eu poderia estar o mesmo, mas mentalmente eu já poderia demonstrar algum sinal de mudança, como um Alzheimer, por exemplo. Entre um gole de café e uma mastigada num sanduíche, resolvi fazer um teste comigo mesmo. Quem descobriu o Brasil? Pedro Álvares Cabral. Onde você nasceu? Campina Grande. Qual o nome da sua primeira escola? O Pequeno Príncipe. Qual o nome da primeira rua onde você morou em Salvador? Rua Professor Souza Brito. Qual o nome do chefe que você mais odiou? Silvio. Qual o nome do chefe que você mais amou? Nádia. Onde você mora? Natal. Em que dia sua filha nasceu? 26. O que é um citoplasma? Algo que tem a ver com células, mas que eu não sei ao certo para que serve ou o que faz. Qual o teorema de Pitágoras? O quadrado da hipotenusa é a soma do quadrado dos catetos. Qual a placa de seu carro? Não sei. O que você comeu ontem no almoço? Teve peixe, mas o resto não saberia descrever. Com essa última, concluí que estava tudo normal. De fato, eu era eu mesmo. Inteirinho. Não havia mudado nada. Nem física e nem mentalmente. Isso foi incrível.

Mas, como pode isso? Não mudar nada?

Lembro-me de quando eu era criança e minha mãe estava comemorando os 40 anos dela. Na oportunidade, ela fez uma festa memorável. Foi a primeira e única festa daquele porte que ela proporcionou. Muita gente e muita comida boa, feita por um chef especialmente contratado para o evento. Coisa única mesmo, pois minha mãe costuma assumir o controle da cozinha em tudo. Mas, o fato era que estava tudo muito bom. Naquela noite eu a olhava admirado, contente por estar fazendo parte daquilo tudo e, ao mesmo tempo, preocupado. Preocupado porque, no meu olhar infantil, eu achava que minha mãe estava ficando muito velha. Quarenta anos para mim era algo tão longe, tão inatingível e tão perigosamente assustador que eu não me imaginava chegando a tal idade. Eu não sabia o que viria após os 40 anos. Como cenários sombrios dos personagens malvados dos desenhos animados que eu assistia à época (Esqueleto de He-Man; Mun-Ha de Thundercats), não deveria ser nada bom. Certamente eu não chegaria aos 40. Não só cheguei, como cheguei rápido.

Indo ao trabalho e desfrutando de um transito que ainda se pode filosofar ao dirigir, duvidei da minha conclusão de que nada havia mudado. A comparação não pode ser curta. Não se modifica de um dia para o outro, é um processo lento. A grandeza da comparação deve ser do tamanho da idade, em décadas. Não se compara 40 com 39, mas sim com 30, com 20 ou com 10. Dessa forma sim, comecei a ver grandes transformações. Dos 10 para os 20, além do crescimento físico, mudanças de endereço e de personalidade. De um guri buchudo do interior, para um universitário na capital baiana. Dos 20 para os 30, mudanças de status social, de objetivos e de fisiologia. De um solteiro, duro e devorador inconsequente de calorias, para um casado, endividado e iniciante da busca interminável do bom condicionamento físico (incluindo o peso). Dos 30 para os 40, foi o período do desenvolvimento cognitivo, estabilidade financeira e continuidade genética. Uma filha, uma dissertação e uma tese foram os frutos desse período. Também um período de maior prática esportiva e muitas mudanças geográficas e de emprego.

Pois bem, terminei a minha reflexão filosófica sobre as mudanças, se eram perceptíveis ou não, ao me deparar com o portão de entrada do meu trabalho. Nesse instante, o vigia que me olhava ao passar o crachá e abrir a cancela para o estacionamento me disse: tenha um bom dia de trabalho, senhor. Senhor. Está aí a palavra, um substantivo que qualifica e expressa bem essa mudança. Senhor. Senhor. Senhor.... Antes era moço ou rapaz. Agora é senhor.

Lembrei-me que não deveria ir ao escritório e sim às salas de treinamento, pois deveria participar de um treinamento para saúde, segurança e meio ambiente. Tratava-se de um curso da norma NR-20, para locais onda há estoque de materiais inflamáveis. Ao chegar à sala, deparei-me com uma turma de estagiários. Como havia me transferido de outra unidade, eu era o único empregado que não havia recebido esse treinamento. Além de mim, só os estagiários recém contratados estavam fazendo o curso. Superado o nítido contraste que eu fazia naquela turma de 20 anos, deparei-me com outra evidência das mudanças que o ano provoca. Explicando a necessidade de redundância na avaliação de riscos de qualquer ambiente ou situação, o instrutor fez uma analogia um tanto quanto complicada para o meu estado de espírito daquele dia.

Ele explicou que, quando se trata de segurança, nunca se pode confiar em um único indicador. Ele estava falando de alarmes de incêndio, detectores de fumaça, indicadores de temperatura, mapeamento de riscos e outros mecanismos necessários para garantir a saúde e segurança de todos. Para exemplificar que a redundância é importante, meu colega instrutor lembrou a experiência dele com o temível exame de próstata, quando completara 40 anos. Diante do médico, ele apresentou o resultado dos exames laboratoriais e laudo apontando que sua saúde estava excelente. Pensando que ia ser dispensado do exame de toque, ele foi surpreendido com o médico apontando para uma maca e ordenando que ele retirasse a roupa. Além de nunca ter esquecido das lições de redundância daquele médico e de utilizá-las em suas aulas, ele acabou me alertando para a inevitável e não mais adiável experiência que irei ter.

Fazer 40 é assim: querer manter a potência dos de 20 e o espírito dos de 30, mas já apresentar a necessidade de manutenção dos de 50. 

A conclusão disso tudo é que as mudanças sempre existirão e que não adianta lutar contra elas. Pelo contrário, deve-se tentar aproveitar ao máximo todas as suas fases e felicitar as pessoas que estão ao seu lado. Sua família e seus amigos. Eles também estão passando por isso e irão te ajudar a descobrir o sentido de sua vida.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Pau de Selfie

Vez em quando o mundo é revolucionado e sacudido por invenções incríveis. Foi assim com o domínio do fogo, com a descoberta da roda, com o uso da força do vento para mover embarcações, com o concreto nas construções, com a lâmpada, com o computador, com a internet e com a raquete de matar muriçoca – eu acho que foi a invenção do século. Nesse início de ano, o mundo novamente está sendo sacudido por outra invenção que não sabemos mais como vivíamos sem ela: o Pau de Selfie!

Isso mesmo: Pau de Selfie! Esse nome composto é de um dispositivo utilizado para prolongar o alcance dos braços no ato vaidoso de se fotografar. Descobri a existência desse inusitado instrumento no teatro. Imagine o meu susto ao notar os movimentos de uma moça que sentava na poltrona à frente. Ela abriu sua minúscula bolsa e começou a vasculhar à procura de algo. Eu imaginei que fosse um espelho ou um batom. As mulheres costumam manter a beleza, não importa onde e quando, não é? Mas, não era nada disso. Da bolsa surgiu um pequeno bastão que, com o movimento habilidoso da mão, foi crescendo, crescendo, crescendo até alcançar uma distância enorme. Na ponta do bastão, já crescido, um celular que exibia a imagem de quem o segurava (a moça), sua amiga e nós todos da fileira detrás. Inevitável foi tentar segurar o espanto e a rizada após constatar tamanha engenhosidade para se fotografar. Foto feita, a moça encolheu o bastão ao tamanho original, guardou-o na bolsinha e seguiu a vida naturalmente.

Depois desse episódio comecei a ver Pau de Selfie em todos os lugares: na praia, na balada, no restaurante, no hospital, nas trilhas ecológicas, na piscina, no avião e em qualquer lugar onde haja um vaidoso ou vaidosa.

O nome Pau de Selfie traduz perfeitamente a originalidade do instrumento. Selfie é um neologismo de língua inglesa que significa tirar um retrato de si, ou um autorretrato. Pau, significa pau mesmo, vara, bastão, cacete ou qualquer coisa comprida. Pau de Selfie, portanto, é uma vara metálica retrátil que segura o seu celular para que você possa sair melhor na foto. Dizem que o Pau de Selfie é uma imitação barata do bastão que segura uma câmera do Go Pro, câmera digital e amplamente vendida para praticantes de esportes e aventureiros. Outros especialistas no assunto afirmam categoricamente que o Pau de Selfie deriva do bastão de aula do professor. Dizem que fabricantes de bastão para aulas, após o surgimento do apontador laser, estavam perdendo mercado e resolveram adaptar seu produto para ele não ficar encalhado no estoque. Porém, a explicação que eu acho mais plausível é a de que o Pau de Selfie é um instrumento inventado para ajudar no combate ao complexo de castração. Sendo um objeto de formato fálico, o Pau de Selfie serviria para acalmar a inveja feminina do pênis, assim como o complexo de alguns homens com o seu instrumento de porte menos expressivo.

Acho que essa última explicação tem evidências comprovadas, pois o sorriso que a moça do teatro fez ao exibir seu Pau de Selfie não teve igual. Certamente, ao exibir seu objeto fálico, ela estava se vingando por ter nascido desprovida de um pênis! Também vejo problemas de origem narcísica ao observar comportamento de quem usa o Pau de Selfie. Por exemplo, já há estudos científicos que comprovam a correlação positiva e significativa entre o tamanho do Pau de Selfie e a origem étnica. Eu pude testemunhar isso ao ver em um show um afrodescendente retirando seu Pau de Selfie e se exibindo com o alcance do instrumento. Não por coincidência, todos os outros timidamente recolheram seus paus. Também os educadores já se preocupam com o aumento do bullying que os garotos começam a sofrer ao exibir seus paus de selfie na escola. Esses mesmos educadores recomendam a proibição do uso do instrumento durante as aulas.

O uso desse instrumento ainda é algo a ser etiquetado, é necessária uma regra de boa convivência social. Quando, como e onde usar seu Pau de Selfie? Eis uma boa pergunta! Nesse fim de semana pude assistir ao ensaio da Salgueiro e ver a apresentação de sua bateria. Como Rainha de Bateria, apareceu a belíssima Viviane Araújo. Linda, simpática e muita animada, Viviane começou a mexer seu tamborim, sambar e acenar ao público. Imediatamente começaram a crescer paus de selfie por todos os lados. Em instantes, a Rainha estava arrodeada de paus, pois além de tirar um autorretrato, o avantajado instrumento também tira retrato dos outros. Cena constrangedora!

Fico pensando como será no carnaval. Todo mundo com seu Pau de Selfie na mão. Alguns até tomando emprestado o Pau de Selfie do amigo, do parente e até de desconhecidos. Blocos surgirão com o nome “Segura no Pau de Selfie”. Mas, o que fazer se algo der errado? O que fazer se, na hora H, o Pau de Selfie emperrar e não subir? O que fazer se forem trocados os paus? O que fazer se roubarem o seu Pau de Selfie? Como você fará o boletim de ocorrência?

- Qual o problema cidadão? Pergunta o policial.
- É que, na confusão do bloco, tacaram a mão no meu pau.
- Mas, isso é normal por aqui! Principalmente nessa época do ano. Ora, você é um sortudo!!!
- O que eu quero dizer oficial é que roubaram ele.
- Roubaram seu pau?! Pergunta abismado o policial.

Até que o cidadão explique que urubu não é meu loro, muita coisa vai rolar. Sem dúvida, é necessária uma regra de uso, uma etiqueta social para utilizar o Pau de Selfie com segurança e fineza.

Diante disso tudo, sempre fico na dúvida se compro ou não o novo brinquedinho. Há quem fique esperando sair uma versão mais sofisticada do equipamento. Talvez as próximas versões do Pau de Selfie já venham com prolongamento automático: bastará apertar um botão e o pau crescerá automaticamente. Outras poderão vir com localização GPS, alarme, iluminação e até vibração em três velocidades para qualquer emergência.


Não sei como será o Pau de Selfie no futuro, mas, sei que assim como a lâmpada, o computador e a raquete de matar muriçoca, não saberemos viver sem carregar o Pau de Selfie conosco.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Carta de Amor


11 de junho de 2014, após meio dia.

Um jornalista estava sentado à mesa de um restaurante no centro do Rio, daqueles restaurantes que se senta ao balcão, comendo um almoço magro na dimensão de seu salário mensal, quando dele se aproximou um pedreiro.

— Desculpe-me senhor, mas gostaria que o senhor escrevesse uma carta para mim.

Assustado, o jornalista respondeu ao desajeitado pedreiro:

— Eu? Por que eu?
— É que me disseram que o senhor é jornalista e como tal eu acho que é a pessoa mais certa para me ajudar. Não que eu não saiba escrever, mas esse tipo de assunto eu não levo jeito.

Curioso com a inusitada situação, o jornalista indagou:

— E que tipo de assunto seria este?
— Uma carta de amor.
— Uma carta de amor? E para quem seria?
— Para ela doutor. Para ela!

O pedreiro retirou uma foto de sua carteira e a entregou ao jornalista.

— E o que você quer que eu diga?
— Não sei doutor. Se eu soubesse não estaria aqui te incomodando.

Vendo que o jornalista estava relutante, o pedreiro insistiu um pouco mais.

— Doutor, ela está na Paraíba e faz mais de um ano que não nos vemos. Quero mandar essa carta amanhã que é dia dos namorados.

Aquela situação o levou a assumir a encomenda e durante toda a noite ele, o jornalista, que não tinha um relacionamento amoroso há muito tempo se colocou a rabiscar e escrever linhas e mais linhas para ela, a amada do pedreiro. Mas, faltava-lhe inspiração. Como poderia ele escrever palavras bonitas se ele não estava namorando ou apaixonado?

A foto entregue pelo pedreiro não o ajudava muito, pois além desgastada e suja, apenas aparecia parte do rosto da mulher. Talvez por timidez dela ou falta de habilidade do fotógrafo, o que se via não revelava muito ao jornalista e depois de quatro doses de whisky barato, uma carteira de cigarro e uma lixeira cheia de papéis amassados, ele desistiu da empreitada e simplesmente desmaiou no sofá.

Em seu sono, geralmente profundo, pois ele só se deitava quando deveras cansado, o jornalista sonhou. E em seu sonho a mulher do pedreiro apareceu. Das poucas e tímidas imagens do seu rosto na foto se revelou uma mulher linda e, nessa revelação, ela ficou nua. Desnudada em tudo e simplesmente perfeita, a mulher sem cerimônia se entregou ao jornalista que já não sabia como era bom possuir uma mulher com desejo e paixão. E a paixão foi tanta e o desejo também, que não foi apenas uma vez, mas a noite toda no deleite de uma deusa que ele, em sua vida real, nunca tivera.

Ao amanhecer, no dia 12 de junho de 2014, revigorado de um sono que não se quer que termine e, de certa forma exausto, o jornalista se pôs a escrever freneticamente. Escreveu como jamais havia escrito, pois amou como jamais havia amado.

Ao ir ao trabalho, o jornalista pôs a carta em seu bolso, mas não sabia se iria entregá-la ou não. Estavam tão intensas e profundas suas palavras que ele ficou receoso quanto à possível reação do pedreiro.

Passou a manhã assim: na dúvida. Mas, o clima de abertura da Copa do Mundo desviou seu pensamento e já na concentração para a partida do Brasil e Croácia, em companhia de seus amigos, num bar de uma das inúmeras esquinas do centro da cidade, ele sentiu um toque em seu ombro. Era uma mão forte e áspera, mas gentil. Era o pedreiro.

— E aí doutor? O senhor conseguiu escrever?

Hesitante, o jornalista puxou a carta do bolso e a entregou. A encomenda foi prontamente lida pelo pedreiro, que de tão feliz suspirou:

— É isso! É justamente isso que eu queria dizer doutor. Só não sabia!

Agradecido, o pedreiro saiu imediatamente para por a carta nos Correios. O jornalista voltou seus olhos para a TV, junto a seus amigos de bar. Ao som do hino nacional e com a imagem da Seleção em campo, o jornalista pensou e sorriu, pois nunca imaginara ter uma noite tão boa justamente no dia dos namorados.

...Seja feliz!

(Adaptado de Carta de Amor de Salomão Schvartzman)

sábado, 24 de maio de 2014

O fim do macho tradicional!

Antes de tudo, esse post não é um lamento e sim uma constatação. Já havia escrito neste blog ou dito para alguém ou, até mesmo, pensado em meus inúmeros devaneios que o homem – Por que não falar: o macho tradicional? – é o verdadeiro sexo frágil. Não é falácia não! Observem as estatísticas e as tendências que vocês concordarão comigo.
Pois bem, se verificarmos direito veremos que o macho leva desvantagem em quase tudo.  No quesito biológico, por exemplo, o sexo feminino é mais resistente às doenças e, não por acaso, as mulheres têm longevidade maior, em média, sete anos a mais que a dos homens. Olhando para a educação, outro quesito importante, pois é o definidor do sucesso ou fracasso em nossa sociedade do conhecimento, as meninas dão um banho nos meninos no número de anos de estudo e, consequentemente, na qualidade do mesmo. Vendo as organizações podemos ainda pensar que os homens as dominam, mas essa é uma situação que logo se reverterá, pois as mulheres são mais sensíveis e, juntando com os estudos, estão cada vez mais ocupando postos de liderança. E, para não me alongar demasiadamente, olhando para a sociedade, verificamos que as mulheres são mais civilizadas que os homens, tanto é assim que os principais programas assistencialistas do governo são direcionados ou têm a mulher como eixo principal, pois o homens se perdem em inúmeras mortes violentas até os trinta anos de idade.
Como se pode notar, são muitas as áreas em que as mulheres vêm superando ou se igualando ao macho tradicional e ajudando a imprimir nele uma nova forma de se comportar na sociedade. Ou seja, o macho tradicional é uma espécie em perigo e, se brincar, em extinção. Antes, o homem ou era macho ou não era macho. Era tudo simples. Ou era ou não era. Não havia estresse. Hoje é tudo complicado. O homem pode ser homem e não ser macho e já se pode ser macho sem ser homem. Há um tal de metrosexual. Há os homens da geração Y. Como se pode ser macho levando esse estigma “Y” logo de entrada? Há os simpatizantes, que não se sabe bem o limite dessa simpatia. Há as siglas infinitas, como as dos GLSTB... Só com o Google mesmo é que se descobre o que significa. O certo é que está tudo muito confuso e sem espaço para o macho tradicional.
Nessa semana, vivenciei uma situação bem peculiar e que representa a perda de espaço no mundo para o macho tradicional: um simples corte de cabelo. Lembro-me bem como era simples cortar cabelo. Meu pai me levava a uma barbearia e o “cabra” cortava o cabelo. Pronto! Simples. A barbearia tinha um espelho, um barbeiro e muito cabelo no chão. O barbeiro não perguntava como você queria cortar o cabelo e tudo dava certo no final, pois só havia um tipo de corte mesmo. Quando adolescente, em Campina Grande, eu frequentava uma barbearia que ficava na Feira Central e, por isso, abria cedo para atender aos clientes de outros municípios que iam à feira para vender ou comprar. Lá era o único lugar que servia sopa aos clientes que cortavam o cabelo, para dar sustança à lida de um dia de feira. Meu pai, macho tradicional como é, até hoje espera para poder cortar com um barbeiro no centro de Campina. O mesmo há uns 25 anos. Nessa barbearia não há sopa e o corte custa 8 reais. Ou seja, o macho tradicional não vai ao cabeleireiro – palavra difícil de pronunciar. O macho vai ao barbeiro, que é canto de macho.
O problema é que não há mais barbeiro na cidade. Em uma proporção razoável, deve haver no mínimo 20 cabeleireiros para cada barbeiro. Observando isso, vendo essa demanda aparentemente reprimida, um empreendedor do Rio resolveu montar uma barbearia na Barra da Tijuca. Ele criou um ambiente muito legal, para machos. Decoração sóbria, música para macho (blues), revista masculina à vontade (Playboy, Sexy, Hustler, Motor, Exame, Veja, etc..) e uma belíssima máquina de chope – ótima por sinal: Mistura Clássica – logo na entrada. Foi nessa barbearia que eu definitivamente enterrei as esperanças de que há algum espaço para o macho tradicional nesse mundo.
O primeiro motivo para isso foi que em um lugar especialmente projetado para homens (machos), havia tanta mulher quanto homem. Descontados os barbeiros em serviço e um senhor que estava ali com seus dois filhos pequenininhos para cortar os cabelos, todos os outros homens que estavam lá tinham uma mulher os acompanhando: mãe, esposa, namorada ou periguete. Além de ser um absurdo por si só – pois os machos não vão aos salões de beleza ficar acompanhando as mulheres pintarem as unhas ou fazerem permanentes em seus cabelos – se torna um absurdo ainda maior sabendo que a barbearia está localizada dentro de um shopping, o que me leva a perguntar: o que faziam aquelas mulheres ali sentadas esperando, enquanto havia uma porrada de lojas a serem exploradas? Isso me leva ao segundo motivo.
A mulherada simplesmente estava no controle absoluto da situação. Elas não estavam simplesmente esperando, estavam ditando o comportamento de seus machos. Todas com olhares ameaçadores para os seus pobres homens que, de tão tímidos e reprimidos, não se ouvia qualquer barulho ou conversa. Onde já se viu uma barbearia silenciosa? Barbearia é por natureza um lugar barulhento, lugar de bravatas, lugar onde se fala de política, de esporte e de mulher, principalmente aquelas das revistas. Todas as barbearias eram assim, menos aquela ali, que só se ouvia o blues tocando, o som das tesouras cortando e as ordens femininas, que a todo instante ditavam o como e o quanto os cabelos dos machos deveriam ser cortados. Aquilo ali era mais um petshop do que uma barbearia. Menos mal pelo blues!
O terceiro motivo é que, apesar de ter uma máquina de chope e da barbearia dar de graça um chope a cada cabelo cortado, nenhum homem estava bebendo. Isso é um pecado! Onde já se viu ter chope de graça e ninguém aproveitando? Para não dizer que ninguém aproveitou, quando soube disto eu pedi um para mim e fui acompanhado pelo senhor com os filhos. Resumindo: apenas os dois homens desacompanhados estavam bebendo o que tinham de direito, todos os outros estavam quietinhos. Isso é um fato aterrorizante e o próximo é mais ainda.
O quarto motivo é o mais evidente da total falta de ambiente para o macho tradicional. Muito embora tivesse um volume considerável de revistas masculinas nenhum homem ousou abrir qualquer uma das revistas de mulher pelada. Eu imagino e senti na pele a tensão que dá ver a Playboy do mês ali na sua frente e ter de ignorar isso. Eu, como não tinha nenhuma fiscal a me controlar, ousei abrir uma Sexy e fui lenta e cuidadosamente passando as páginas, fingindo me interessar pelos textos e colunas, doido para chegar às fotos. Foi um misto de vontade de ver o conteúdo e o medo da repressão expressa nos olhares ao meu redor. Mas, fui em frente e vi o que tinha de direito. Talvez por medo, pena ou companheirismo aos demais desafortunados que estavam presentes e vigiados, eu parei apenas na primeira revista e me aquietei. Em um ambiente natural do macho, não só abriríamos todas as revistas como comentaríamos e até diríamos em alto e bom tom: que bunda gostosa!
Por fim, para acabar de vez com tudo e decretar o fim ou a inutilidade do macho tradicional, chegou um casal jovem ao estabelecimento. Eu, nessa hora, já estava no segundo chope e doido para ir embora. O casal em questão aproximou-se do balcão de chope. O rapaz não abriu a boca e a garota disse claramente para o atendente: ele vai cortar o cabelo e o chope é para mim.
Talvez já seja verdade o que diz um comediante: homem é que nem vassoura, retire-lhe o cabo e não serve mais para nada. Decretado o fim do macho tradicional!

domingo, 21 de abril de 2013

Mentira!


De onde surge a mentira? Qualquer resposta a essa pergunta terá muita chance de ser, inevitavelmente, mentirosa. Como provar que a mentira, por exemplo, nasceu com Eva jurando a Adão que ele foi o primeiro em sua vida? Logo Eva, bonitinha, fofinha e formosa, como ela se apresentava naqueles primeiros dias da humanidade. Mulher de carnes fartas, braços largos, seios generosos, lábios carnudos, bochechas róseas e de um feromônio embriagador! Apesar de Eva ser uma tentação a qualquer mortal, creio que Adão acreditava em sua estória, pois, mesmo magricelo e sem graça como ele era, olhando ao redor não se via ameaçado por outros concorrentes de sua espécie.
Entretanto, quem disse que eles estavam absolutamente sozinhos naquele paraíso? E a ovelha? E o jumento? E a macaca? E o orangotango? E a danada da cobra? E as árvores? E os frutos, raízes e legumes em formatos avantajados? A pansexualidade já poderia ser um conceito em moda à época. Ou seja, não dá para ter absoluta certeza de que Eva estava ou não falando a verdade para Adão.
Considerando que ela não estivesse falando a verdade, o fato é que Adão acreditou. E, talvez, é justamente no ato de se acreditar em uma estória que surja a mentira. Pois, se Adão não tivesse acreditado em Eva, a estória de que ele foi o primeiro na vida dela não passaria de uma tentativa frustrada, de um jogar-verde-para-colher-maduro que não deu certo. Mentira só é mentira se alguém acredita que a estória é verdadeira. Uma mentira revelada ou descoberta passa a ser uma história falsa, sem graça e boba. Nesse sentido, uma estória para ser mentirosa precisa ser tão plausível a ponto de não haver dúvidas de que ela seja verdadeira, ou seja, de que ela seja realmente uma história. Essas são as mentiras e Eva sabia disso.
Talvez, Adão também soubesse disso e fingiu acreditar em Eva. O que mais ele poderia fazer? Já estava cansado de comer as ovelhas, as cabras e qualquer outro animal de porte compatível. Para variar um pouco, já tinha tentado com alguns animais mais exóticos, mas, não poderia perder a oportunidade de um approach com Eva. Que vale frisar: a única mulher do pedaço! Por isso, a mais bonita, charmosa e gostosa criatura que seus olhos já tinham visto naquelas terras onde tudo era possível. Como, nesse contexto, Adão poderia desmentir Eva? Revelar que ele sabia de seu passado sórdido? Dizer que conhecia todas as suas experiências pansexuais? Ou, ainda, contar os detalhes de seu caso com a danada da cobra? Não poderia, não é? Não poderia colocar em risco um possível relacionamento com Eva. Então... Pode ser que Adão não seja tão abobalhado assim.
Podemos supor que Adão sabia de tudo e fingiu acreditar em Eva. Dessa forma, a estória que Eva contou – de que ela era pura, virgem e inocente quando conheceu Adão – continua sendo uma mentira ou merece ser rebaixada a outra categoria? Se Adão realmente sabia de tudo e fingiu acreditar em Eva, não contando para mais ninguém, cria-se, nesse caso, uma metamentira. A metamentira é uma mentira construída com base em outra mentira. Ela sobrepõe a mentira original, deixando o contexto da estória muito mais mentiroso. A metamentira, portanto, é um fortificador da mentira. Quando há uma metamentira, torna-se muito mais difícil a mentira ser descoberta ou revelada. Uma vez Adão acreditando em Eva, mesmo sabendo que a conversa toda era puro papo-furado, Adão e Eva se tornam parceiros dessa mentira, dessa metamentira.
Porém, ao criar a metamentira, Adão assume uma posição estratégica e privilegiada no relacionamento com Eva. Ele tem agora uma carta na manga que pode ser usada a qualquer hora, de acordo com sua conveniência. A qualquer momento, Adão pode barganhar algo com Eva, dizendo que vai conversar com a cobra ou que vai verificar a estória da festa da cenoura que Eva participou com a macaca. Festa essa que o orangotango aponta como o evento divisor do interesse da macaca pelo sexo oposto. A vantagem da metamentira fica evidente todo domingo à tarde, em que Eva e Adão estão deitados de conchinha após o almoço. Adão, como de costume nesses momentos, sempre dá uma fungada no cangote de Eva, anunciando que a sua libido já deixa sua parte pontiaguda em riste.
- E ai, minha fofinha, vamos brincar um pouco?
- Hoje não Adão, tenha a santa paciência! Esse javali que comemos estava muito gordo e esse calor tá me deixando com um pouco de dor de cabeça.
Se a libido de Adão não estiver tão forte assim, ele pode se contentar, deixar que surja mais uma metamentira para usá-la mais adiante, virar-se para o lado e esperar que a sua bandeira se recolha. Mas, supondo que ele esteja à flor da pele, ele pode usar a uma metamentira antiga para reverter a tendência dos acontecimentos.
 - Ah... Dor de cabeça, não é?
- É, Adão. Você sabe que as mulheres tem disso, né?
- Sei minha fofinha. Sei sim. Aliás, as macacas também têm disso, né?
- Como assim? Que macacas?
- Outro dia eu estava conversando com aquela macaca mais peluda e ela me falou disso também. Sabe que ela me disse que vocês saiam muito juntas antes de me conhecer? (Adão, maliciosamente, solta a pista de que ele sabe de tudo e de que está disposto a jogar merda no ventilador)
- É... O que mais ela falou? (Eva com ar de curiosa e preocupada com seu passado).
- Não muita coisa. Lembro-me que ela falou também de uma festa que vocês foram. Uma festa um pouco light, meio vegetariana e que só tinha fêmeas.
- Aquela macaca mentirosa falou sobre essa festa? (Eva já tentando desmentir que tivesse ido à festa das cenouras com a macaca)
- Falar, falou não, pois apareceu o escroto do orangotango e levou a macaca para conversar. Mas, já que você está indisposta, acho que vou dar uma voltinha por ai. Quem sabe eu não encontro a macaca e ela termina de me contar.
- Vai não, dengo! Sabe... Esse calor tá até me deixando bem fogosa e a dor de cabeça, acho que já passou. Vem cá, vem!
Claro que Adão foi. As mentiras são assim, umas mais cabeludas que as outras, mas todas para serem acreditadas, senão não seriam mentiras.

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