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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Lucro Brasil


Vivemos um período no mínimo estranho. Estamos sendo bombardeados por notícias governamentais e para-governamentais anunciando uma nova era para o Brasil. Uma era de prosperidade “nunca antes vivida” na história – ou será estória? – desse país. Apesar desse otimismo patrocinado, desse orgulho despropositado e desse gigantismo – uma vez que já somos a 6º maior economia do planeta – sem lastro, há um sentimento de falácia pairando no ar.
Exemplos disso podem ser verificados em cada esquina de nossas cidades. Há prédios sendo erguidos em todos os cantos, mas não há mais ruas para se transitar. A inflação oficial apresenta números comportados, mas os preços no caixa do supermercado não param de subir. Há propagandas de que estamos evoluindo nos indicadores sociais, mas os professores estão em greve há quase um semestre. Há anúncio que estamos no pleno emprego, mas me canso de dizer não aos flanelinhas e vendedores ambulantes nos sinais da cidade. Construímos palácios e obras faraônicas – como os estádios de futebol e a transposição do rio São Francisco – para sermos o centro da atenção mundial nos próximos anos (Rio + 20; Copa do Mundo; Olimpíadas), mas ainda pisamos no esgoto quando saímos de casa. Sem dúvida, vivemos numa era de contradições.
Sem ater às questões contraditórias da política – que não são poucas – abordarei nesse post um exemplo dessas contradições: o Lucro Brasil. As pessoas estão consumindo feito umas loucas, sem parar para analisar as consequências para as suas vidas e, principalmente, o real valor dos bens que estão adquirindo. Mais uma vez, estamos deixando para que outros resolvam nossas questões, enquanto nos iludimos com a falácia da nova era brasileira. Um desses exemplos é o do automóvel, mas se aplica a quase tudo.
O Brasil alcança níveis de produção, diversidade e vendas de veículos nunca antes alcançados em sua história. Somos a quarta maior frota de veículos do planeta. Mas, estamos pagando caro demais pelos carros que compramos por aqui. Por quê? Tentando compreender essa contradição, convidei um amigo (Fábio Lourencetti), entendedor do assunto, para participar desse post. Ele respondeu às seguintes perguntas:
Há um movimento no Facebook voltado para que o brasileiro não compre carro em 2012. Do que se trata esse movimento?
O movimento existente é, na verdade, para não realizar a compra de carros zero Quilômetro. Esse movimento está sendo realizado por toda a internet, o Facebook é simplesmente mais um canal para acesso as massas de forma rápida e constante, por intermédio do “Abaixo ao Lucro Brasil”.
O que é o “Lucro Brasil”?
O Lucro Brasil é a margem exorbitante aplicada pelas montadoras em nosso mercado.
Pensa só: o Brasil é o quarto maior mercado consumidor de automóveis do mundo e o quinto produtor, mas não possuímos uma indústria automobilística nacional. A China possui. A Índia e a Rússia também. Isso pensando nos BRIC. Sem indústria própria e com alto consumo, temos então o fato de sermos o primeiro da lista em preços. Um mercado para ganhar dinheiro!
Muitos pensam que o culpado são os impostos, porém a realidade não é bem essa. Vejam que interessante: carros produzidos aqui, em nosso país, e exportados para nossos parceiros comerciais, a Argentina e o México, são vendidos muito mais baratos por lá. Como exemplo se pode citar o City da fabricante Honda. Fabricado em Sumaré interior de São Paulo, é vendido por R$ 31.470,00 no México enquanto no Brasil custa R$ 54.580,00 (versão LX, pois a DX nem é oferecida no mercado mexicano por ser simples demais). Se retirarmos os impostos, que somam aproximadamente 30% do valor brasileiro, teremos um custo de R$ 38.206,00, ou seja, cerca de 21% a mais que no país estrangeiro. Lembrando que o carro é produzido aqui e possui custo de transporte para as revendas de lá. Não retirei a margem da revenda, pois no México a margem também deve existir!
Obs.: O dado do percentual de imposto foi retirado da seguinte reportagem: http://www.youtube.com/watch?v=8AwRr9qM50U 
Os valores dos respectivos veículos foram retirados dos sites da montadora Honda Mexicana e Brasileira.
O que podemos perguntar em seguida é o porquê da diferença, correto?
Pois bem, vamos analisar o mercado presente. Temos cerca de 76% do mercado concentrado em 4 montadoras: Fiat, Volkswagen, Chevrolet e Ford. As quais são denominadas como “as 4 Grandes”, ou seja, essas empresas com produtos desatualizados e precários são os que mais vendem no mercado, o que fez com que montadoras novatas (entrantes) no mercado conseguissem colocar seus produtos classe C posicionados em um patamar de classe A, como o Honda Civic, Toyota Corolla, dentre outros. No México 76% está em 12 montadoras, ou seja, maior concorrência.
Temos também um fato cultural em nosso país, onde é visto normal parcelar um carro em 60 vezes de R$ 700,00. A contradição disso está em acharmos absurdo pagar o mesmo valor por um curso em uma faculdade de engenharia, durante 5 anos, ou seja, os mesmos 60 meses. Comprar carro tudo bem, mas financiar a educação superior, para o brasileiro, é um absurdo!
Podemos citar também a sombra da inflação, a qual assolou nosso país por muitos anos e imobilizar recursos em um automóvel era visto como uma forma de investimento, o que ainda permanece na mente de muitos brasileiros e é o principal argumento para não se abandonar as 4 grandes clássicas de nosso mercado. Ou seja, no Brasil ainda se compra carro pensando na revenda.
Observando a tabela abaixo, onde fora comparada a desvalorização por 3 anos de veículos praticamente de mesma categoria, incluindo duas das 4 grandes, a Nissan e a Renault (duas consideradas de grande risco de desvalorização).
Fonte: http://www.noticiasautomotivas.com.br/confira-a-tabela-comparativa-com-a-desvalorizacao-dos-principais-sedas-do-mercado/

Ou seja, no médio e longo prazo não vemos relativa diferença, porém a revenda é um modelo mental enraizado na mente do brasileiro.
Você não comprará carro Zero?
Em minha visão não precisamos ser extremistas e deixar de comprar carros Zero.  Devemos destruir esses paradigmas que mistificam os impostos como os únicos responsáveis pelo alto preço dos carros. Outro vilão está na concentração do mercado e no consequente Lucro Brasil.
O exemplo da CAOA, que investiu na fábrica da Hyundai, trazendo Know-How ao país e agora com projeto de investir em uma fábrica nacional, nos dá uma esperança de maior concorrência no futuro. (http://www.snn.com.br/noticia/110813/6/caoa-confirma-fabrica-automobilistica-na-paraiba.html).
Ainda não entendo muitas contradições de nosso tempo e de nosso país, mas uma coisa é certa: a origem delas está em nossa passividade perante a realidade que teima em nos desafiar, passando em nossa “cara” o quanto estamos errados nas prioridades que escolhemos.

Imagem: http://devaneios-loucos-de-eliene-almeida.blogspot.com.br/2010/07/eu-sou-como-um-palhaco-triste-que.html


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Marketing de Vácuo


Três anos atrás, eu escrevi um post intitulado Estratégia Circense. A ideia central daquele post era relatar como um circo ruim, no caso o Circo Europeu, poderia prosperar do vácuo de outro circo bom, no caso o Cirque du Soleil. Interessantemente, nesse ano o grande circo canadense voltou às terras baianas e, mais uma vez, o fenômeno se repetiu. Entretanto, dessa vez o Circo Europeu deu espaço a dois outros circos: o Tihane e o Portugal. Ou seja, aparentemente a estratégia utilizada pelo Circo Europeu foi tão boa que dois outros circos a seguiram.
Sabendo que o Cirque du Soleil tem uma programação elaborada com bastante antecedência e publicada aos ventos, o que faz concorrentes com menor envergadura, neste caso os circos Tihane e Europeu, competir na mesma cidade e no mesmo momento? Seria mais pausível que nenhum outro circo quisesse se apresentar conjuntamente ao Cirque du Soleil, não? No post Estratégia Circense a minha preocupação estava no relato do evento em si. Nesse novo post, a minha preocupação será a da explicação desse fenômeno, tentando defender a hipótese contrária: para um circo ruim, é interessante se apresentar juntamente a um circo bom. Nesse sentido, apresentarei a seguir duas abordagens bastante utilizadas no marketing.
A primeira abordagem vem da psicologia e trabalha a motivação humana. Há diversas teorias que abordam isso, mas o que nos interessará aqui são os seguintes conceitos: atenção seletiva; distorção seletiva; e retenção seletiva. Atenção seletiva diz respeito a capacidade humana de selecionar aquilo que nos interessa. Diariamente, somos bombardeados de anúncios e propaganda de todos os tipos. Se fossemos prestar atenção a tudo, provavelmente piraríamos. Dessa forma, prestamos atenção apenas àquilo que nos interessa. Isso é atenção seletiva.
A forma como entendemos o mundo tem muito a ver com toda nossa bagagem cultural, emocional, educacional e social. Vemos o mundo através de filtros. Um simples sorvete pode nos traduzir divergentes emoções a depender de nossas experiências. Um sorvete da Häagen-Dazs pode parecer muito mais gostoso do que realmente é, enquanto que um “Capelinha” – em Salvador – ou um “Caicó” – em Maceió – podem parece menos saborosos para os que os veem pela primeira vez. Para essa distorção, que naturalmente fazemos sem perceber, dar-se o nome de distorção seletiva.
Por fim, retemos em nossa memória de longo prazo apenas o que realmente nos marca ou que nos é repetido de forma massacrante. Por isso sabemos a malvada da tabuada, o insuportável jingle do político que está se candidatando a algo e o igualmente horripilante refrão “ai se te pego” do Michel Teló. Entretanto, lembramos para sempre daquele delicioso beijo, do doce de leite da vovó e daquela propaganda da Gelol que marcou nossos corações: não basta ser pai, tem de participar (http://www.youtube.com/watch?v=3ztB1BT6u-Q). Isso é retenção seletiva.
Saindo da psicologia, vamos à economia e dela focaremos o caso da demanda. Acho que já falei sobre demanda aqui no Blog, mas, enfim... O que é demanda? Demanda pode ser definida pela capacidade e vontade para comprar algo. O conceito de vontade tem tudo a ver com o de desejo e necessidade. Necessidade é ontológico. Temos necessidade de várias coisas: reprodução, segurança, alimentação, diversão etc. Há quem advogue que as necessidades não são criadas, elas existem e pronto. Entretanto, o desejo pode ser criado. Desejo é uma necessidade saciada por algo específico. Dessa forma, podemos entender que o desejo é uma necessidade trabalhada. A sofisticação da necessidade gera o desejo. Desejo, necessidade e vontade, portanto, são objetos de estudo do marketing e da publicidade.
Para haver demanda não basta ter apenas vontade. Tem de haver também capacidade. Capacidade significa “condição para”. O primeiro elemento da “condição para” é o dinheiro. As pessoas precisam tem recursos financeiros para comprar os seus objetos de desejo, senão não há demanda. Além do dinheiro, têm uma infinidade de outras “condições para” como o tempo, a disposição, o acesso, a permissão etc. Apesar de ter muitas “condições para”, a mais importante é o dinheiro e nele resumiremos aqui a capacidade das pessoas para gerar demanda.
Dessa forma, para se computar a demanda, precisa-se verificar quantos indivíduos possuem vontade e têm condição (dinheiro) de possuir ou adquirir algo. Ter apenas vontade não é suficiente para criar a demanda, como já vimos. Nesse caso, se aplica o rótulo de demanda potencial para as pessoas que têm vontade, mas não têm “condições para”. Também existe o inverso quando as pessoas têm a “condição para”, mas não possuem o desejo. Neste caso também não há demanda e o melhor rótulo é o da demanda inexistente. Pergunto: como se cria demanda – caso haja uma situação de demanda inexistente – ou como se cria mais demanda – casa haja uma situação de demanda potencial? Resposta: aumentando o desejo ou reduzindo as “condições para”. Os exemplos estão aí. O Iphone é um exemplo de um trabalho bem feito no desejo. A Insinuante, as Casas Bahia ou a Ricardo Eletro são exemplos de bons trabalhos feitos na redução das “condições para”.
Quando o Cirque du Soleil vai a uma cidade geralmente ele começa o trabalho publicitário bem antes de sua estreia. O objetivo do Cirque é romper a barreira da atenção seletiva das pessoas e despertar o máximo de desejo possível. Claro que o Cirque conta com sua favorável boa imagem e reputação para isso, pois já retemos seletivamente o seu significado. Não é qualquer circo, trata-se do Soleil! Ele rompe a barreira da atenção seletiva facilmente e gera muito desejo. Aliás, ele gera desejo de sobra. Tanto desejo que não consegue atender a todos. Na verdade, o Cirque du Soleil geral uma enorme demanda potencial.
Essa demanda potencial se traduz em pessoas que ficam maravilhadas com a magia do espetáculo e com a publicidade do Soleil, mas não tem “condição para” comprar o seu ingresso. Os seus orçamentos são apertados. Ir ao Soleil significa abandonar certos compromissos ou deixar de atender necessidades mais nobres e isso não é admissível para essas pessoas. Resumindo: elas querem, mas não podem!
Nesse momento, entram os outros circos de segunda e terceira categorias. A barreira da atenção seletiva já foi rompida pelo Soleil e a distorção seletiva faz com que os consumidores vejam no Circo Portugal ou no Circo Tihane o Cirque du Soleil em pessoa. Circo é circo, afinal! Como os preços desses circos são mais populares, altera-se a curva da demanda por circo na cidade, transformando a demanda potencial do Soleil em demanda verdadeira do Tihane e Portugal. Mais pessoas vão ao circo, não importando qual.
Faço uma última pergunta: o que aconteceria se o Tihane ou o Portugal aparecessem na cidade sem o Soleil? Provavelmente eles não conseguiriam romper facilmente a barreira da atenção seletiva, gerariam pouco desejo e deixariam muitas pessoas na zona de demanda inexistente.
Parece que a magia do circo está sendo revelada, não?!!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O Marketing Político e a vitória de Dilma


Não há melhor momento para falar sobre marketing político do que no decorrer de uma eleição para presidente da república. Muito confundido com ações publicitárias enganosas para ludibriar o coitado do eleitor e fazer dele um “babaca”, que compra um produto estragado e ainda fica feliz, nas campanhas eleitorais o marketing político, como afirma Castillo, torna-se a “Geni” nacional capaz de fabricar e eleger candidatos enlatados e artificiais, pouco capazes de encher um copo americano com os seus projetos copiados uns dos outros para, depois das eleições, ser esquecida por mais quatro anos. Mas, o que é Marketing Político, senão uma enganação?

Marketing político nada mais é do que o marketing aplicado ao político e à política. Então, o que é o marketing, senão outra enganação?

Pela definição de Philip Kotler marketing é um processo social e gerencial pelo qual indivíduos e grupos obtêm o que necessitam e desejam através da criação, oferta e troca de produtos de valor com outros. No marketing, os principais conceitos são os de necessidade, desejo, produto, comunicação, troca, valor e satisfação.

Necessidade é um estado de privação de alguma satisfação básica, não é criada pela sociedade e é inerente à condição humana, como, por exemplo: a fome. Desejo é uma carência por satisfação específica para atender às necessidades, como, por exemplo: comer uma pizza da Dr. Pizza para matar a fome. Produto são bens (carros, televisores, barbeadores, pizzas etc.), serviços (transporte, consultoria, corte de cabelo etc.) ou idéias (religião, ideologia etc.) oferecidos para satisfazer à necessidade e ao desejo. As empresas estabelecem comunicação (propaganda e publicidade) com os consumidores para a troca de seus produtos. A troca é a atividade social que permite os indivíduos e os grupos conseguirem os produtos que necessitam e desejam. Valor ocorre quanto os produtos trocados geram mais benefício que o custo para adquiri-los. A satisfação é um sentimento que ocorre quando o produto adquirido corresponde às expectativas dos indivíduos e grupos.

Entendeu? No marketing político o processo é o mesmo. As pessoas e os grupos vivem e ocorrem em sociedade e, por estarem em sociedade, precisam se organizar, estabelecer regras, leis e destinar seus esforços e recursos para a prosperidade da sociedade como um todo. Nas sociedades democráticas, a política e os políticos são produtos criados para suprir as necessidades e os desejos de organização, planejamento, coordenação e controle dos esforços dessas sociedades. Os partidos políticos se comunicam com os eleitores, ao longo da gestão e principalmente perto das eleições, para o convencimento daqueles acerca de suas ações e propostas. A troca ocorre sempre no processo eleitoral: os partidos políticos oferecem seus representantes e projetos em troca do voto da população. O valor ocorre quanto essa troca é positiva para os dois lados: políticos e população. A satisfação, por sua vez, ocorre quando a população aprova os políticos eleitos em função de suas expectativas iniciais.

Na troca política das próximas eleições presidenciais o partido político que sairá vitorioso será aquele que melhor aplicar os conceitos de marketing. Neste sentido, o PT corre como coelho enquanto o PSDB ensaia passos de caranguejo.

O que diferencia o candidato do PT do candidato do PSDB? Certamente não são as propostas políticas, pois, atualmente, elas são completamente pasteurizadas. O que diferencia os candidatos é a capacidade que o PT tem, por meio da máquina pública, de gerar valor e satisfação na troca eleitoral para a maioria da população.

Lula é popular e a candidata de Lula é a preferida na corrida eleitoral pelo fato da maioria dos eleitores brasileiros estarem satisfeitos com a gestão petista. Você pode até não concordar, mas é o que acontece. Neste processo mercadológico, algumas situações corroboram para que a população esteja satisfeita com o PT e eleja Dilma em outubro próximo:

Primeiro: a gestão de Lula partiu de uma expectativa muito baixa e até ruim. Antes de assumir, o receito da gestão PT foi traduzido no aumento da inflação, na queda da bolsa de valores, na subida do dólar e da taxa de juros. Com expectativas baixas, superá-las foi fácil. Só em manter a política econômica igual ao do antecessor deu alívio e satisfação aos eleitores. Resumindo: imaginava-se que seria um desastre e, por não ter sido desastre, ficamos satisfeito.

Segundo: o PT conseguiu atender aos desejos das pessoas, mais que às suas necessidades. Atender aos desejos da população se mostra mais interessante para um partido político do que atender as necessidades. Necessidades são básicas e não são criadas. Desejos são frutos da cultura de um povo e, portanto, perfeitamente fabricados. Por exemplo: necessidade de água no sertão é bem diferente do desejo da transposição do rio São Francisco. Por exemplo: necessidade de emprego é bem diferente do desejo da aceleração do crescimento, feito pelo PAC. Outro exemplo: necessidade de auto-afirmação ou da prática de esporte é bem diferente do desejo de ser sede da Copa do Mundo ou das Olimpíadas.

Terceiro: Lula e o PT ocupam brilhantemente os melhores espaços da mente das pessoas. Mensagens como “primeiro trabalhador a ser presidente”, “nunca antes na história desse país”, “credor do FMI”, “Lula o filho do Brasil”, “exportador de petróleo e pré-sal” e outras são importantíssimas para deixar aos concorrentes pouco ou nenhum espaço a ser ocupado.

Quarto: o PT e, principalmente, Lula se comunicam perfeitamente com a maioria da população. No marketing, comunicação é elementar. O PSDB pode até ter criado programas de transferência de renda e assistencialistas como o Bolsa Família, mas todos creditam a Lula a sua existência. O PSDB pode até ter criado o Plano Real, mas é o PT quem colhe o fruto ao comunicar o vigor da economia. A Petrobrás pode até ter sido reorganizada na gestão do PSDB, mas é com o PT e o pré-sal que ela se torna a companhia mais influente no Brasil. Outros programas são de puro mérito petista e igualmente bem comunicados, como o caso da Minha Casa Minha Vida.

Quinto: o PT usa bem sua marca e ídolos. Lula é o ídolo do PT que está sendo disputado até pelo PSDB. Se Serra pudesse, ele também posaria para uma foto ao lado de Lula. Aqui na Bahia, chegou-se ao ridículo de todos os principais candidatos utilizarem santinhos com a foto de Lula. Ninguém fez o mesmo como FHC, no Brasil, ou com ACM, aqui na Bahia. Com Lula ao lado é quase improvável um ataque frontal dos concorrentes. Como enfrentar Dilma se ela está com Lula? Como enfrentar Lula se ele é querido pela grande maioria da população. Um dia, disseram que Lula não transferiria votos. Hoje, vê-se que o PT conseguiu transferir os votos de Lula à Dilma.

O resultado das próximas eleições já é certo. Enquanto o PSDB agoniza e procura factóides para uma tentativa de segundo turno, o PT brilhantemente usa os conceitos do marketing político a seu favor.

domingo, 20 de setembro de 2009

Eficácia Escolar 3 - Envolvendo pais e comunidade

Fazer as coisas que necessitamos por meio de ferramentas ou técnicas complexas é, sem dúvida, um grande desafio. Entretanto, fazer com que essas mesmas coisas funcionem a partir de elementos simples é um desafio maior ainda. Solucionar com simplicidade é surpreendente.

Um dos maiores desafios das escolas brasileiras, sem dúvida, é a integração com a família e a comunidade. Quando falamos de escolas privadas, há certa terceirização do “problema educação”. Os pais matriculam seus filhos nas escolas caras para esquecerem que existe esse problema. O tempo disponível pelos pais é cada vez menor e, por isso, parece ser uma solução fácil a delegação da educação para as escolas. Quando pensamos em escolas públicas, há uma miscelânea de problemas que vão desde o distanciamento proposital da escola com os pais dos alunos à falta de estrutura para uma devida recepção e acolhimento.

A relação da escola e seu entorno também é complicada, seja no domínio público ou particular. As escolas são elementos de nossa sociedade, interferem e são interferidas pelo contexto geopolítico, mas não conseguem ou não sabem utilizar sua capilaridade como instrumento de desenvolvimento comunitário e convívio pacífico e harmonioso. Não freqüentemente, as escolas são vistas com inconveniência: provocadoras de barulho; obstruidoras do trânsito; ponto de marginalidade; poluidoras do ambiente.

Muitos estudos e programas governamentais e sociais apontam a importância de encurtar a distância das escolas com os pais e a sociedade. As escolas mais eficazes são aquelas que mantêm relações cooperativas com os pais e a sociedade. Sammons, Hillman e Mortimore identificaram que escolas que encorajam a participação dos pais no aprendizado dos filhos e uma boa relação escola-casa afetam significativamente o desempenho dos estudantes, quer seja no ensino fundamental ou no médio. Tizard e outros autores mostraram que o envolvimento dos parentes tem mais efeito no desenvolvimento da leitura que adicionar um professore extra. Outros estudos apontam que a participação dos pais é mais importante em contextos socioeconômicos desfavoráveis.

O mecanismo pelo qual o envolvimento dos pais e da comunidade influencia na eficácia escolar não é muito esclarecido. Há uma especulação plausível que quando os pais e a comunidade têm a mesma (ou similar) expectativa e objetivos em relação à educação dos seus filhos a combinação escola-pais-comunidade se torna um elemento poderoso para que o processo de aprendizagem ganhe força e proporcione melhores resultados.

Cotton, com base em um estudo de diversos autores, sugere as seguintes ações:

1) Comunicar repetidamente para os parentes a importância do envolvimento, independentemente do seu nível de escolaridade.

2) Oferecer aos parentes diversas maneiras de participação e envolvimento.

3) Encorajar fortemente a participação dos parentes em atividades estratégicas para o programa de ensino.

4) Apoiar os parentes com informações e técnicas de como ajudar na aprendizagem dos estudantes.

5) Estabelecer e manter uma freqüente comunicação escola-casa, principalmente no que compete ao progresso dos estudantes.

6) Envolver os membros da comunidade numa rede de relacionamentos relacionada às atividades acadêmicas e sociais da escola.

Um exemplo dessa última ação proposta por Cotton aconteceu neste último sábado, no qual fui envolvido, pela escola de minha filha, numa atividade extremamente simples e altamente eficaz. O convite da escola foi para “empinar pipa”. Os pais deveriam comprar carretéis e a escola entraria com as pipas. Essa foi uma atividade que teve influências em múltiplos campos, a saber: pedagógico; social; ambiental; mercadológico.

Pedagogicamente falando, a atividade proporcionou o desenvolvimento de diversas competências nos estudantes, professores e pais que estiveram envolvidos. Quantas competências são necessárias na construção de uma pipa? Precisa-se de leitura para pesquisar e montar o projeto da atividade. Utiliza-se da matemática para calcular os números e as medidas dos materiais a serem utilizados. Aplica-se a geometria para a definição das formas e diferenciação das pipas. A física é utilizada para explicar as forças necessárias para que a pipa voe e se mantenha estável no ar. Etc.

No campo social, a atividade, realizada no sábado, conseguiu atrair um número grande de pais que, com muita certeza, não iriam se ver ou se relacionar sozinhos. Foi uma oportunidade de conviver mais com os filhos e conhecer pessoas interessantes que, no dia-a-dia, seria impossível. Não bastassem as brincadeiras em torno da pouca habilidade em empinar pipa, os pais discutiam diversos assuntos que iam do futebol à política local.

Do ponto de vista ambiental, o dia escolhido coincidiu com o dia da praia limpa. Como a atividade foi realizada na praia de Lauro de Freitas, os pais foram orientados a levar sacos de lixo para preservar o ambiente. A mobilização também foi importante para formar consciência coletiva da importância de se preservar uma das poucas áreas públicas que a cidade oferece.

Mercadologicamente falando, o evento proporcionado pela escola foi um momento de exposição ao público e de obtenção de feedback para melhoria dos serviços oferecidos. Impossível foi para os transeuntes não ficar admirados com a quantidade de pipas no ar e não identificar a escola que estava proporcionando aquele espetáculo.

Muitas escolas e governos procuram soluções complexas para o envolvimento dos pais e da comunidade com as atividades acadêmicas dos estudantes. Por serem complexas, essas soluções se tornam inviáveis. A simplicidade da solução apresentada pela escola de minha filha, como falei no início, é surpreendente.

sábado, 29 de agosto de 2009

Estratégia Circense

Na Bahia, assim como no Brasil, existem muitos provérbios que servem de consolo quando não temos o que necessitamos ou desejamos, mas precisamos utilizar algo (bens ou serviços) em substituição. É assim quando dizemos: quem não tem cão caça com gato. Ou então: se não aguenta vara, peça cacetinho (esse é baiano). Ou ainda: se só tem tu, vai com tu mesmo (esse é paraibano).

Nesse mês de espetáculos circenses, poderíamos inventar outro provérbio: quem não vai ao Cirque du Soleil se contenta com o Europeu.

O Cirque du Soleil, de origem canadense, como muita gente sabe, está em temporada aqui no Brasil com a peça Quidam. Vocês podem curtir um pouco no youtube (
http://www.youtube.com/watch?v=cUM5EWwxar8). Trata-se de um fabuloso espetáculo onde as possibilidades humanas são testadas ao limite. Coragem, destreza, equilíbrio, força, leveza, sincronismo, bom humo, beleza e trabalho em equipe são umas das muitas qualidades transmitidas pelos integrantes do Cirque. A moral da peça é a recuperação ou a resignificação do sentido da vida, perdido no nosso dia-a-dia.

Para além da peça, o Cirque também oferece um espetáculo de organização. Mercadologicamente falando, tudo é pensado para satisfazer e encantar o público presente. O Cirque é caro, mas vale cada centavo. As entradas variam entre pouco mais de 120 reais (estudante na fileira Z) a bem mais de 600 (na fileira A frontal). O estacionamento comum custa 20 reais. A pipoca (com manteiga) sai por 11 ou 13 reais. O refrigerante (gelado) sai por 6 reais a lata. Em compensação a peça é surpreendente, emocionante e irretocável. As duas horas do show passam num piscar de olhos. O ambiente é climatizado, extremamente limpo e muito confortável. O serviço oferecido, incluindo a segurança, é digno de país civilizado. O resultado disso tudo é que você não consegue ir para casa sem levar um DVD do Quidam, por uma pechincha de 49 reais.

Localizado um pouco antes do Cirque du Soleil, na mesma avenida, encontra-se o não tão abastardo e glorioso Circo Europeu, que se apresenta em Salvador no mesmo mês do seu concorrente canadense.

Apesar de europeu no nome, esse circo é bem brasileiro e, como todo circo brasileiro, carece de recursos, estrutura e muita imaginação. A principal atração do Circo Europeu é Chiquino, um palhaço soteropolitano de quinta categoria, que fica usurpando o publico e que ocupa a metade final do espetáculo de pouco mais de uma hora. Como não tem competência e tampouco criatividade, Chiquinho e seu insuportável ajudante ficam recrutando espectadores para que eles dancem, rebolem e se exponham ao ridículo. Tirando Chiquinho, os outros integrantes do Circo Europeu até que se esforçam para transmitir um mínimo de atração. O momento ápice é quando entram cinco motos no Globo da Morte, o que alivia a crítica quanto ao resto do espetáculo e à precária estrutura.

Para entrar no Circo Europeu não se paga muito. O ingresso mais caro é de 30 reais e criança abaixo de 4 anos não paga. A pipoca, o refrigerante e o algodão doce custam o mesmo: 3 reais. O estacionamento fica por 10 reais. Apesar desses preços, o Circo Europeu não vale o que cobra e, de certa forma, custa bem mais caro que o Cirque du Soleil. Ao final da peça, vendedores ainda tentam vender alguns produtos com a marca do Chiquinho, o que obviamente é um trabalho inglório.

O que tem de bom no Circo Europeu é a sua estratégia de comercialização, a qual não deve em nada ao seu colega canadense. Com todos os patrocinadores do mundo, o Cirque du Soleil não conseguiu ser tão inteligente quanto o dono do Circo Europeu, que, merecido, poderia usar o sobrenome Brown. Calma! Vou explicar.

Primeiro. Aparentemente um suicida, o circo brasileiro resolveu se apresentar justamente no mesmo período do circo canadense. Mas, inteligentemente, o Circo Europeu se apropriou de toda campanha publicitária para a formação do desejo de ir ao circo, promovida pelos patrocinadores do Cirque du Soleil.

Segundo. O Circo Europeu encontrou uma excelente localização, até mais visível do que a do Cirque du Soleil, permitindo uma fácil identificação de oportunidade pelos clientes e a quase nula campanha publicitária.

Terceiro. Brilhantemente, sabendo que não tem como competir pela qualidade, o Circo Europeu apostou no provérbio e inventou um próprio: quem não vai ao Cirque du Soleil se contenta com o Europeu. Com isso, garantiu como espectadora toda uma fatia da população que tinha desejo pelo circo, mas não tinha dinheiro suficiente para ir ao Quidam.

Resumo da ópera: mesmo com um produto ruim, desde que se tenha estratégia, há oportunidade para todos.
Imagem Circo Europeu: www.atardemais.com.br/imagens/circo.jpg

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Ele é feio, mas é gostoso.

Minha tentativa de passar “outro carnaval” fora de Salvador não deu certo. Ao menos, no Nordeste, só não choveu em Salvador. Todas as outras capitais ficaram sob fortes nuvens negras que despejavam rios de chuvas, que não eram confetes. Em João Pessoa não foi diferente, passamos por aqui um carnaval aguado, reservado às áreas fechadas, como clubes e casas. Não digo que não houve animação, mas de um tipo diferente.

Amargando minha dor de cotovelo, tive tempo para observar um fenômeno nordestino, curioso, mercadológico e gastronômico ao qual dedico essa postagem. Trata-se do caranguejo.

Pode ser que alguém não saiba, mas caranguejo é um crustáceo bem feio, mas muito gostoso. O bicho tem cinco pares de patas bem cabeludas, das quais uma é bem grande e no formato de uma pinça. Vivem entocados em buracos e variam de tamanho, cor e nome: Caranguejo-azul, Boca-cava-terra, Caranguejo-aranha-gigante, Guaiamu, Caranguejo-uçá, Aratu, Caranguejo-amarelo, Chama-maré, Caranguejo-do-rio, Caranguejo-dos-coqueiros, Guruçá, Maria-farinha, Caranguejo-de-água-doce-de-malta, Caxangá, Caranguejo Real, Caranguejo Centolla e Uçá.
Nós, seres humanos, comemos de todos, mas o mais degustado é o caranguejo uçá, que é retirado dos mangues de todo litoral brasileiro. Recentemente houve uma epidemia de um fungo proveniente de afluentes de fazendas de camarão que quase extinguiu esse tipo de caranguejo. Os bares de Salvador e, pasmem, de Aracaju tiveram que encomendar toneladas desse crustáceo vindas do Pará.
Quem percorre o litoral do Nordeste logo percebe que a maneira de saborear o caranguejo muda bastante de localidade para localidade. Em Salvador, por exemplo, o caranguejo é fervido em água e sal. Dele são retirados todos os pelos e, à mesa, vão apenas os bichinhos e os artefatos para comê-lo (tábua e martelo). Em Aracaju praticamente é a mesma coisa. O que muda é o ritual. Lá, na capital sergipana, o povo se veste como se fosse a um casamento e sai para o principal point da cidade, bar Amanda, para comer caranguejo e tomar cerveja num copo de plástico dentro de um copo americano (de vidro).
Numa cidadezinha pernambucana chamada Goiana tem um bar (Buraco da Gia) que a atração é um caranguejo (guaiamu) que serve e toma cerveja. Essa história – ou será estória? – rola desde que eu era pequeno, já passou no Fantástico e ainda é contada. Imagino a idade desse caranguejo. Na verdade, segundo contam alguns blogueiros, o dono do bar (Seu Luiz) fica o ano todo adestrando caranguejos. Os que demonstram algum talento vão ao salão servir cerveja aos clientes, os que não demonstram talento algum também vão, só que dentro das panelas.
Já na Paraíba, aqui em Cabedelo, o ritual muda novamente. Os pelos das patas não são retirados e ele é cozinhado em um gorduroso molho a base de leite de coco. Fica muito bom, mas meleca tudo em volta. Além disso, como acontece em Sergipe, vem um delicioso pirão de acompanhamento.
Como acontecem todos os anos em que passo alguns dias do verão aqui na Paraíba, meu irmão me leva para comer alguns desses bichinhos. Geralmente ele escolhe os bares Cibelly ou Bardionaldo (assim mesmo), ambos na praia de Poço. Neste dia percebi um curioso fenômeno mercadológico. Ao lado do Bardionaldo surgiu um outro bar, que não me lembro o nome. Esse novo bar tem as mesmas dimensões e estruturas do seu vizinho. Diferiam, aparentemente, em um ponto: o Bardionaldo estava lotado e o novo estava completamente deserto.
Quando chegamos ao Bardionaldo não havia mais mesas à disposição. Tivemos que ir para a beira da praia esperar vagar um lugar. Prontamente, uma garçonete trouxe um isopor com três cervejas estupidamente geladas e um sombreiro. Um pouco depois já tínhamos também uma mesa e as cadeiras. Estava tudo certo e muito bem atendido. Porém, quando resolvemos pedir o pretendido caranguejo, o tempo fechou e em poucos segundos uma forte chuva (daquelas de canivete) varreu a praia. Todo mundo procurou algum ponto para se refugiar. O Bardionaldo, que já estava cheio, ficou lotado. Não tivemos outra escolha a não ser invadir o bar vizinho, que ainda continuava vazio.
Rapidamente pegamos uma mesa, das muitas disponíveis, e resolvemos atender ao nosso anseio pedindo, naquele bar, a iguaria que desejávamos desde a primeira linha dessa postagem. Foi ai que começamos a notar a diferença do bar para o Bardionaldo e a explicação de tantas mesas vazias quando a praia estava cheia.
Primeiro. Solicitamos uma cerveja e fomos surpreendidos com a notícia que só tinha long neck, que, com o mesmo sabor do de uma garrafa normal de 600 ml, custa o dobro do preço.
Segundo. Pedimos três caranguejos, mas fomos novamente surpreendidos que o pedido mínimo era o de uma porção com quatro unidades.
Terceiro. Os caranguejos vieram faltando muitas patas. Caranguejo já não tem muita carne e, faltando patas, resta nada.
Quarto. Não veio o pirão, acompanhamento que é normal em qualquer bar paraibano.
Quinto. Apesar de ter apenas duas mesas ocupadas (a nossa e a de um outro grupo desavisado) a conta veio errada.
Daí a explicação ao vazio na multidão. A proposta do bar era outra. O bar não queria competir com o mesmo público do Bardionaldo. Queria oferecer uma qualidade de serviços e produtos melhores com um preço também maior, para atrair pessoas disposta a pagar por isso. Se essa é a proposta, tudo bem. Mas, não dá para cobrar mais e servir pior: ninguém fica.
Enquanto ao caranguejo, terei que retornar ao Bardionaldo para concluir minha missão.

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