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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Muita calma nessa hora...


No início desse mês, a Folha de São Paulo divulgou em seu site (http://ruf.folha.uol.com.br/) o Ranking Universitário Folha (RUF). Trata-se de uma tentativa de qualificar e classificar as universidades brasileiras, assim como ocorre em outros países. A metodologia utilizada, baseada em iniciativas internacionais, prevê a pontuação das instituições em quatro critérios: qualidade de pesquisa; qualidade de ensino; avaliação do mercado; e indicador de inovação.

É de se parabenizar a iniciativa da Folha. Colocar a “cara” à tapa em um tema tão espinhoso é para os fortes. Entretanto, é oportuno fazer algumas críticas ao RUF:

1º) É muita pretensão divulgar que as 10 mais bem classificadas universidades pelo RUF são as 10 melhores universidades do país. Ser a mais bem classificada universidade no RUF pode não significar ser a melhor universidade do país. Aliás, qual o critério legítimo para eleger a melhor universidade do país? São muitas as possibilidades para isso, não acham? Quanto mais tentamos dizer o que é uma boa instituição de ensino superior (IES), mais achamos possibilidades e mais temos que fazer recortes e emendas. Uma boa IES pode assumir diversas formas e essas formas podem variar em diversos contextos. Uma boa IES pode ser aquela que simplesmente dá acesso; aquela que consegue produzir bons resultados acadêmicos; aquela que emprega mais seus egressos; ou aquela que melhor satisfaz as políticas públicas. Dessa forma, quem deu o poder à Folha para dizer que o seu critério ranqueia as “melhores” universidades do país? O melhor seria ser menos pretensioso com as manchetes do RUF.

2º) É muita prepotência da metodologia do RUF ignorar os indicadores de qualidade e produtividade produzidos pelo Ministério da Educação sobre o ensino superior. Nesse sentido, é importante se lembrar do trabalho produzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), responsável pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes). Há algum tempo, tal sistema avalia as instituições superiores em três critérios bastante estudados e criticados pela academia: avaliação das instituições, dos cursos e do desempenho dos estudantes. A partir de diversas fontes indubitavelmente mais fidedignas e válidas que as utilizadas pelo RUF, tais critérios produzem indicadores como o Conceito Preliminar do Curso (CPC) e o Índice Geral de Cursos (IGC), os quais servem para a tomada de decisão por parte das próprias instituições avaliadas, da sociedade e do governo. Todo esse arcabouço teórico, metodológico e histórico do Sinaes não serve ao RUF? O melhor seria ser menos prepotente na metodologia empregada pelo ranking da Folha.

3º) O fato de não utilizar indicadores já amplamente divulgados e institucionalizados, como os do Sineaes, é uma escolha. No meu ponto de vista, incorreta, mas é uma escolha. Entretanto, entre os critérios escolhidos pelo RUF (qualidade de pesquisa; qualidade de ensino; avaliação do mercado; e indicador de inovação), parecem-me apresentar, ao menos, dois erros graves. O primeiro é o cuidado ao estabelecer critérios mutuamente excludentes e isso aparentemente os utilizados no RUF não os são. As razões são muitas, mas, por exemplo, dá para imaginar que exista uma forte correlação entre avaliação do mercado e qualidade de ensino. Nesse sentido, bastaria uma instituição ser boa em um critério para ser boa nos outros critérios do ranking. O outro erro é o peso atribuído entre os critérios. Não me parece ser bem justificado o fato da qualidade da pesquisa ter 55% do peso, a qualidade de ensino e a avaliação do mercado 20% (cada) e o indicador de inovação apenas 5%. Quer dizer que produtores (e reprodutores) de artigos são a prioridade do RUF? É por ali que se deve andar a educação superior para a Folha? Produzindo artigo? A inovação merece parcos 5%? Acredito que o sonhado equilíbrio entre ensino, pesquisa e extensão não esteja bem refletido nos pesos atribuídos aos critérios do RUF.

4º) Uma crítica especial se deve ao método empregado no RUF, em três elementos básicos: amostra, instrumento de coleta de dados e escala de pontuação. A amostra variou de critério para critério sendo empregados indicadores qualitativos e quantitativos para a formação de uma escala de pontuação. Como uma escala de pontuação se alimenta de informações quantitativas (ex. publicação por doutor) e qualitativas (ex. percepção pessoal sobre a melhor instituição)? Como garantir uma amostra representativa com 1212 empresários para um número de 237 instituições de ensino superior espalhadas pelo país? Qual o erro? O que significa uma universidade que logrou nota zero em qualidade de ensino, como a Universidade Federal da Paraíba (e muitas outras)? Quer dizer que nessa universidade não há ensino? Quer dizer que o aluno nela não aprendeu nada? O interessante que essa citada universidade é nota 4 (de 1 a 5) no IGC do INEP (de 2010), que leva em consideração, entre outros aspectos, a contribuição da instituição no desenvolvimento cognitivo do aluno. Há muito que melhorar no método do RUF.

5º) Apesar do alarde provocado pela ampla divulgação em um dos maiores jornais do país, o RUF não é suficiente. De que adianta ranquear apenas 237 (aproximadamente 10%) instituições de ensino superior? O que fazer com as outras (90%) instituições? As que ficaram de fora não são merecedoras de comparação? Estão abaixo das ranqueadas ou acima? Os alunos matriculados nelas devem ficar preocupados ou aliviados?

Claro que essa é a primeira rodado do Ranking Universitário Folha. Claro que se deve louvar essa iniciativa, pois, ao fim e ao cabo, é mais um diagnóstico para melhorar a educação brasileira. E, claro que muitas dessas críticas já são previstas e antecipadas por Rogério Meneghini, coordenador do RUF. Mas, se você está pensando em tomar alguma decisão com base nesse ranking... É melhor ter muita calma nessa hora!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Educação Financeira

Quando assumi o cargo de professor na Universidade Federal de Alagoas, o professor Lucas me convidou a integrar um projeto de extensão, sob sua coordenação, que objetiva a popularização da educação financeira entre estudantes secundaristas. A ideia é proporcionar a essa população conhecimentos e habilidades para lidar com o dinheiro de forma proativa. Questões como a formação de poupança, as alternativas de investimento, a negociação de dívidas e a realização de projetos a longo prazos são exemplo de assuntos desenvolvidos pelo grupo.
Bem... Depois de muita teoria é normal ficar ansioso para colocar em prática os conhecimentos construídos. E foi com muita sede ao pote que me vi aplicando as orientações de uma boa educação financeira logo no início dessa manhã.
Depois de uma boa ginástica matinal, estava eu esperando o corpo voltar ao normal antes de entrar na pousada onde habito em Santana do Ipanema. Na entrada dessa pousada, há uma pequena galeria de lojas, sendo uma delas uma financeira. Entre um gole e outro de água, veio uma senhora caminhando pela calçada e se posicionando próximo a mim. Como sou um pouco alto, eu deveria ser o dobro do tamanho dela. Essa senhora – uma mistura de índio com negro – deveria ter no máximo 60 anos. Só que o sol do sertão e uma vida sentada no cabo da enxada a deixava com uma aparência de bem mais velha. Nesse momento, travou-se um diálogo:

Senhora: aqui faz empréstimo?
Eu: como?
Senhora: essa loja faz empréstimo? (apontou a senhora para a financeira)
Eu: acho que sim.
Senhora: o Sr. sabe a que horas abre? (eram umas 8 horas da manhã).
Eu: não sei não senhora, mas acredito que nessa rua devem ter outras desse tipo.
Eu: a senhora vai fazer um empréstimo? (comecei a me interessar)
Senhora: vou.
Eu: dizem que quem faz um empréstimo numa loja dessa nunca mais consegue se livrar dele. (joguei verde para ver o que colheria)
Senhora: Deus me livre! Quero pagar logo.
Eu: como é o nome da senhora?
Senhora: Maria.
Eu: pois é dona Maria, dizem que os juros são tão altos que você fica sempre precisando de mais dinheiro, mais empréstimo.
Maria: eu sei, mas com fé em Deus eu vou pagar!
Eu: a senhora está precisando mesmo de empréstimo?
Maria: estou meu filho.
Eu: é para pagar uma dívida ou para comprar alguma coisa?
Maria: é para comprar um terreninho.
Eu: e a senhora não pode juntar (poupar) esse dinheiro?
Maria: não meu filho, tem de ser logo!
Eu: pense bem! É melhor juntar o dinheiro do que ficar enforcada para pagar depois.
Maria: mas, é para que meu filho vá morar nele.
Eu: e ele não pode morar com a senhora por enquanto até que a senhora junte o dinheiro e compre o terreno à vista?
Maria: não. Eu quero que ele vá embora logo! (senti o drama)
Eu: então ele vai embora e a senhora é quem vai ficar com a dívida para pagar?
Maria: é melhor assim!
Eu: pense bem! A senhora pode não conseguir pagar o empréstimo e ter que fazer novo empréstimo e ficar cada vez mais endividada.
Maria: Deus me livre! Já reservei o tanto que posso pagar por mês.
Eu: Quanto é que a senhora pode pagar por mês.
Maria: uns 70 reais. É o que sobra!
Eu. Pense bem! Se a senhora não conseguir pagar?
Maria: Deus há de me ajudar para que eu pague tudo.
Eu: eu sei dona Maria. Mas, se um dia, algo de ruim acontecer – um acidente, uma tempestade, uma doença etc. – e a senhora precisar usar esses 70 reais e não tiver como pagar o empréstimo?
Maria: não, não, Deus vai me ajudar! Eu tenho muita fé em Deus!
Eu: não quero dizer que Deus não vai te ajudar... é que, de vez em quando, a natureza foge do controle e uma eventualidade acontece. Ai a senhora vai se endividar mais ainda. É melhor poupar. A senhora já pens....

Não consegui completar o raciocínio. Dando uma desculpa que iria à farmácia, dona Maria saiu sem nem olhar para trás.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

E o Nordeste? Vem ali atrás!

Bombas caindo na cabeça de Kadhafi, Inter ganhando mais um campeonato internacional, bolsas de valores subindo e descendo (mais descendo que subindo), nova comemoração de gol do R10, Jobs deixando a Apple, Guig-Ghetto lançando o próximo hit do verão baiano... Nenhuma notícia dessa semana deveria ser mais interessante aos pais e às mães que a divulgação dos resultados da Prova ABC (Avaliação de Aprendizagem de Leitura e Matemática) para alunos do 3º ano do ensino fundamental (uma parceria do Todos Pela Educação com o Instituto Paulo Montenegro/IBOPE, Fundação Cesgranrio e INEP).

Algum tempo atrás, eu estava discutindo com a minha esposa qual seria o melhor local para morar. Consideramos três hipóteses de escolha: em um local socialmente favorável (perto dos parentes e/ou amigos); em uma região economicamente favorável (em desenvolvimento e com oportunidades); em uma região favorável à educação (com boa educação para nossa filha). A solução era óbvia: em um lugar que tivesse as três características. Mas, supondo que sejam condições excludentes, qual delas você optaria?

Nesse fim de semana passado, escutei o debate de Eduardo Campos (Governado de Pernambuco) no Canal Livre, da Rede Bandeirantes. Quem escutou ao debate e não conhece a realidade de Pernambuco (e do Nordeste) logo imaginou que o paraíso na Terra é tropical e que lá se dança frevo e se escuta maracatu. O governador bradou o avanço econômico do seu estado, falou da geração de empregos, das novas oportunidades, do combate ao crime etc. Mil maravilhas! Mil maravilhas também no discurso oficial do Governo da Bahia, com o seu jingle insistente na TV e no Rádio, o qual, entre outras coisas, diz: ... é o povo sabendo ler e escrever... De fato, o Nordeste tem avançado se comparado a outras regiões pobres do planeta. Mas, está longe de ser um paraíso na Terra.

Há aproximadamente 10 anos comecei a ter acesso aos dados de avaliações educacionais. Na época, participava de um Programa Educacional que tinha um projeto de avaliação e que produzia relatórios similares ao da Prova ABC. Era normal ficarmos abismados com a precariedade na educação, principalmente na Bahia. Já naquela época, o discurso oficial era da melhoria da qualidade da educação e de eliminação da desigualdade entre os estados brasileiros. Se formos buscar nos arquivos da história, nos anos 90, Paulo Renato e FHC lançaram o FUNDEF justamente para tentar corrigir as imensas disparidades regionais. Antes mesmo do FUNDEF, podemos encontrar a SUDENE e outras tentativas em diversas áreas. Bem... Não quero fazer um relato histórico, apenas apontar que o que o relatório da Prova ABC traz não é novo, assim como não são novos os discursos do governador Eduardo Campos e do jingle do Governo da Bahia.

O Nordeste está atrasado e continuará atrasado por muito tempo se a velocidade do desenvolvimento for essa que estamos vendo. Para se ter uma idéia, em Leitura, o Nordeste é o último colocado e está atrás em 30 pontos do primeiro (o Sul). Em Matemática, o Norte é o mais atrasado, mesmo assim o Nordeste está atrás do Sul em 27 pontos. Para se compreender melhor a diferença, imagine uma corrida de 500 metros disputada em 3 etapas (Ensino Fundamental I, Ensino Fundamental II e Ensino Médio). Na primeira etapa, a garotada do Sul já abriu uma vantagem de 27 a 30 metros para a garotada do Nordeste. Projete qual será a vantagem na última etapa!

Você que mora no Nordeste pode estar pensando aliviado: ainda bem que meus filhos estão matriculados em escolas particulares. Ledo engano! A diferença entre as escolas particulares do Nordeste para as do Sul retrata uma situação ainda pior. Em Leitura, 37 pontos, e em Matemática, 38 pontos. Mas, se você for uma pessoa socialmente responsável e preocupada, vai ficar de cabelos em pé ao saber que a diferença entre as escolas públicas do Nordeste para as escolas privadas do Sul é de 69 pontos em Leitura e de 76 pontos em Matemática.
Volte a imaginar que o prêmio da corrida de 500 metros é uma ótima universidade ou um excelente curso técnico, o que, provavelmente, resultará numa melhor colocação futura no mercado de trabalho. Considerando que em uma sociedade deva haver médicos, engenheiros, economistas, mas, também, arrumadeiras, garçons e garis, preveja agora para quem estará reservada cada uma dessas ocupações.

Entre acreditar no discurso rouge dos governadores nordestinos ou na realidade apontada pelos dados de avaliações nacionais, prefiro imaginar que estar perto da família e dos amigos é o principal motivo para nossa permanência aqui.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A educação fast-food


Na semana passada, enquanto participava de um encontro sobre EAD na UFRN, uma das palestrantes surpreendeu a platéia com o cartaz ao lado: Educação não é fast-food. Trata-se de uma campanha do Conselho Federal de Serviços Sociais e da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social. Essa campanha – que, até o momento, é eficaz em chamar a atenção geral para a questão da oferta de cursos na modalidade a distância – compara a educação com a alimentação e associa a educação na modalidade a distância à alimentação típica da cultura do fast-food: rápida, gostosa, mas ordinária.

No site da campanha (http://www.educacaofastfood.com.br) se encontra a seguinte argumentação:

Já imaginou trocar suas refeições por um lanche rápido durante quatro anos? É exatamente isso que ocorre com quem escolhe o ensino de graduação à distância em Serviço Social.

A campanha Educação não é fast-food pretende mostrar essa realidade, comparando as aparentes facilidades do ensino à distância com um lanche rápido, mas pouco nutritivo. A agilidade desses cursos só pode ser garantida porque a graduação é realizada em condições precárias, como mostram os lanches usados na campanha. Com isso, professores e tutores não têm como assegurar as diretrizes curriculares do ensino, nem uma formação de qualidade.

Mais a frente, o texto focaliza sua ação:

(...) Assim, não são posicionamentos e atitudes políticas e institucionais fundadas no desconhecimento, na discriminação e no preconceito, e menos ainda são dirigidas aos estudantes e trabalhadores do Ensino à Distância. Na verdade, a campanha marca nossa discordância com a política brasileira de ensino superior e com a expansão que não garante o acesso democrático ao ensino, tampouco assegura sua qualidade.

Em outra página do site, são elencados os principais problemas da EAD:

Problemas de Estrutura

1- Carga horária
2- Bibliotecas
3- Avaliações
4- Debate em sala de aula
5- Estrutura dos Pólos

Problemas de Tutoria

1- Carga horária
2- Interação com os professores
3- Formação do tutor
4- Coordenador e supervisor registrados do CRESS

Problemas de Estágio

1- Supervisão acadêmica
2- Estágio real
3- Supervisão presencial
4- Plano de estágio
5- Formação qualificada

Não emitirei minha opinião sobre EAD, pois já a fiz em postagem passada. No entanto, carece registrar duas possibilidades da campanha: 1) a campanha é séria, pois visa à melhoria da oferta da educação superior, mas é ingênua, está fora do seu tempo e está desinformada, carecendo de bases científicas para justificar a não utilização da metodologia a distância; ou 2) a campanha não é séria, pois visa tão somente a retenção da expansão do ensino superior e à reserva de mercado para os profissionais de serviços sociais.

Caso a segunda possibilidade seja a verdadeira, é importante lembrar o exemplo da OAB, como estratégia mais eficaz para isto. Por outro lado, caso a primeira possibilidade seja a verdadeira, então a preocupação deveria ser estendida a qualquer modalidade de ensino, pois ideias como essa (www.clubeeducacao.com.br) se tornarão cada vez mais frequentes.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

LAPDL

A preocupação com a avaliação, ou melhor, com a prova é quase que universal entre os estudantes. Eu, particularmente, sou avesso à realização de qualquer prova de língua portuguesa, principalmente aquelas que buscam saber sobre a utilização correta do pronome obliquo átono ou do emprego do adjunto adverbial de intensidade. Para muitos, a realização de provas provoca pavor inimaginável, como se estivessem diante do momento da verdade, a qual geralmente não é bonita. Exceto algumas pessoas que morrem de véspera, o certo é que o pavor em ser avaliado é proporcional ao despreparo para a avaliação. Apesar dessa relação ser óbvia, semestre após semestre, alunos não se cansam de perguntar aos seus professores: Como vai ser a prova? Será difícil? Vai cair o quê?

Foi numa palestra que o Prof. Dr. Saja nos apresentou uma maneira simples de explicar aos alunos como resolver esse problema de prova. Peço licença ao Prof. para divulgar seus métodos nesse blog, com algumas ligeiras adaptações.

Contava Saja que na UFBA havia uma disciplina no departamento de física que era tida como a que mais reprovava os alunos. Perante o índice de reprovação, os alunos matriculados nessa disciplina começavam o semestre apreensivos e continuavam nesse estado até a realização das provas finais, a qual consumava a frustração e aumentava ainda mais a fama da disciplina. Em um dado semestre, a disciplina foi ofertada por um professor recém contratado. Preocupado com a má fama da disciplina, querendo reverter a situação e, principalmente, os índices de reprovação, o professor quis inovar e logo na primeira aula deu uma dica para os alunos.

Professor: queridos alunos. Sei que vocês estão apreensivos com as provas dessa disciplina. Não é por menos! Os índices históricos de reprovação são assustadores. Quem passa nessa disciplina praticamente está formado. Mas, eu quero dizer uma coisa para vocês, uma coisa para lhes tranquilizar. Vou escrever no quadro a fórmula para se dar bem e passar em qualquer disciplina, inclusive nessa.

Prontamente o professor escreveu no canto superior esquerdo do quadro o seguinte anagrama:

LAPDL
RAPDE
EAPDP

Escrito o anagrama, o professor iniciou a aula como se não houvesse dito e nem escrito nada. Os alunos trataram de anotar o anagrama em seus cadernos e correram para copiar os assuntos da aula, pois o professor se mostrava ligeiro e já estava longe. Passadas algumas aulas, um aluno observando o anagrama que continuava no canto superior esquerdo do quadro, sem qualquer solução, desabafou.

Aluno: Professor! O Sr. nos falou para não nos preocupar com a disciplina e que, para se sair bem em qualquer disciplina só precisava dessa fórmula e pronto. Mas, até hoje não sabemos do que se trata esse anagrama. Já está chegando a data da prova e estamos ficando desesperados.

Professor: Bem... Eu esperava que essa pergunta não demorasse tanto. Mas, antes tarde do que nunca. Na primeira aula eu vos disse que se vocês utilizassem essa fórmula vocês seriam aprovados em qualquer disciplina, não importa quão complexa e difícil seja. O anagrama é muito simples de se resolver. Então vamos lá:

L de “Leia”
A de ”a”
P de “porra”
D de “do”
L de “Livro”

Professor: Não tem segredo meninos. Para passar tem de ler a “porra” do livro. Continuando...

R de “Resolva”
A de ”a”
P de “porra”
D de “do”
E de “Exercício”

Professor: A Leitura é importante, mas precisa praticar. Sem a prática não acontece a internalização do conhecimento e nem a aprendizagem. E, agora, o grad finale:

E de “Esqueça”
A de ”a”
P de “porra”
D de “da”
P de “Prova”

Professor: Eu sou capaz de jurar para vocês e fazer uma aposta que, se vocês lerem a “porra” do livro e resolverem a “porra” do exercício vocês podem esquecer a “porra” da prova.
Não sei se o que o Prof. Saja nos contou foi verdade, mas aquela turma foi a que teve melhor desempenho na história do departamento de física da UFBA.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Necessitamos de mais qualificação profissional


Certo dia, quando eu ainda trabalhava em uma cervejaria e era um dos responsáveis pelo setor de compras, aconteceu um fato que contribui para ilustrar o desafio que teremos de enfrentar para alcançar um ritmo de crescimento econômico sustentável: a qualificação profissional de nossa mão-de-obra e de nossos empresários.

Na ocasião citada, precisávamos comprar um painel de identificação para a entrada da cervejaria. O painel deveria cobrir toda a entrada por onde passavam caminhões, assim como teria de ser instalado a uma altura suficientemente alta para que os veículos carregados deixassem a fábrica sem nenhum problema. Após termos consultados vários fornecedores, um dos escolhidos para fazer um orçamento nos surpreendeu pelo despreparo com o serviço, com o cliente e, principalmente, com os seus funcionários.

Primeiro, apresentou-se inadequadamente na reunião, tentando estabelecer uma relação informa e permissiva. Qualquer comprador tecnicamente habilitado e ético sabe que o formalismo, o rigor às regras e a impessoalidade são as opções desejadas, principalmente por organizações sérias. Segundo, demonstrou total desprezo à organização e à higiene. Há quinze anos, quando eu era estagiário de uma companhia de petróleo, um de meus instrutores fazia questão em dizer que o banheiro de um posto de gasolina deveria ser impecavelmente limpo. Higiene significa saúde e satisfação dos clientes. No caso de nosso fornecedor de painel, no caminho entre o escritório e a entrada da cervejaria, onde deveríamos medir o tamanho do painel, ele jogou no chão da calçada um copo de água que acabara de usar. Abaixamos para pegar o copo e o colocamos no lixo. Nesse momento, observando o seu vacilo, ele comentou:

- Fornecedor: É! Aqui vocês têm essas frescuras de preservação do meio ambiente, né?

Terceiro, ignorou qualquer conhecimento acerca do serviço, das condutas de segurança, das relações humanas e da gestão das pessoas de sua empresa. Ao chegar ao local de instalação do painel, o fornecedor pediu a um de seus empregados que subisse numa escada para mediar a área de do painel. A escada que ele levara não estava em boas condições e o funcionário trajava roupas comuns e vestia uma chinela tipo havaianas. Ao começar a mediar a área, lá em cima, o funcionário ameaçou cair por duas vezes, pois a escada balançava muito e ele se esticava para alcançar os pontos de media. Ao ver a situação, informamos ao fornecedor de nossa preocupação com a segurança de seu funcionário. A resposta que obtivemos não fugiu à expectativa.

- Nós: Não parece perigoso? O seu funcionário pode cair.
- Fornecedor: Antes ele que eu!

A tragédia não aconteceu. Como também não aconteceu a contratação desse fornecedor. Infelizmente não são poucos os fornecedores e os prestadores de serviços que, desqualificadamente, propõe-se a competir no mercado. Quando a economia está desaquecida, há, de certa forma, uma seleção natural e os piores fornecedores são eliminados. Entretanto, quando a economia se aquece e permanece aquecida por algum tempo, esse tipo de fornecedor consegue sobreviver.

Estamos em um período de economia aquecida e de falta de mão-de-obra qualificada, seja ela do dono da empresa ou de seus funcionários. Recentemente envolvido em uma obra de um novo empreendimento, estou surpreendido com a quantidade de pessoas desqualificadas que estão no mercado ou que querem, a qualquer custo, entrar no mercado. Nessa recente experiência, acredito ter me relacionado com mais de 30 fornecedores diferentes. Destes, estimo que apenas dois corresponderam ao esperado: cumpriram ou entregaram o que venderam, sem qualquer efeito colateral. Todos os demais faltaram à expectativa: orçaram errado, entregaram errado, entregaram com defeito, demoraram para entregar, montaram errado, quebraram ou sujaram outras coisas para montar e por aí vai...

Solução? Educação e qualificação profissional. Não é por menos que o tema está em todos os programas dos principais concorrentes à presidência.

sábado, 15 de maio de 2010

EAD - Trevas ou Oportundiade?

Algumas coisas nos surpreendem pela força com que elas conseguem quebrar nossas convicções há tempos arraigadas. Foi assim quando escolhi mudar o objeto de estudo do meu doutorado. Por motivos profissionais, acabei transformando o meu doutorado numa oportunidade de estudar mais profundamente os assuntos relacionados ao meu trabalho: educação superior a distância.

Confesso que eu era extremamente cético em relação à educação a distância (EAD). Não acreditava mesmo! Como é que pode um aluno ser formado sem assistir aulas, sem freqüentar fisicamente uma faculdade? Se é comum, entre os professores, a reclamação da queda na qualidade dos alunos presenciais, imaginem em relação aos alunos EAD?

Como achamos feio tudo que não é espelho, quebrar um preconceito só mediante muita aproximação. Foi isso que aconteceu comigo. Trabalhando com EAD e estudando essa modalidade de ensino ao longo do meu doutorado, pude entender melhor suas ferramentas, seus métodos e o processo de ensino-aprendizagem que o suportam. Não é que encontrei a luz, mas hoje não vejo na EAD as trevas que me assustavam outrora.

Nesta semana, meu projeto de doutorado – denominado “Fatores de qualidade da Educação superior a Distância” – foi qualificado. Na banca de qualificação estavam três doutores: um economista (meu orientador), outro da educação pura e um terceiro da área da computação (convidado externo). Todos fizeram suas críticas construtivas para o enriquecimento da pesquisa, mas o que me chamou mais atenção foi o ceticismo do doutor em educação. Vi no ceticismo dele o meu antigo ceticismo sobre o assunto. Logo no início de sua fala, ele confessou o seu preconceito em relação à respectiva modalidade de educação. No final, ele declarou que o texto que lera o ajudara a ver o assunto a partir de outros ângulos, enxergando oportunidades e um largo campo de estudos e desenvolvimento.

A partir da discussão travada na banca de qualificação, fiquei motivado em expor aqui no BLOG partes da tese, para que, lentamente, outros céticos também enxerguem mais que trevas nessa rica modalidade de educação. Neste sentido, o primeiro texto trata do que é a educação a distância e o que a distingue da educação presencial.

O que é EAD?

Processos de ensino e aprendizagem ensejam, pelo lado do ensino, a comunicação de conhecimentos, informações e estímulos para o desenvolvimento de competências e, pelo lado da aprendizagem, a necessidade de apropriação por parte dos sujeitos desses conhecimentos, informações e estímulos para formação de suas competências.

Uma boa definição para educação a distância (EAD) é dada pela Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED). Para a ABED, “EAD é a modalidade de educação em que as atividades de ensino-aprendizagem são desenvolvidas majoritariamente ou exclusivamente sem que alunos e professores estejam presentes no mesmo lugar à mesma hora” (ABED, 2010).

Moran (1994) nos adverte que hoje temos três modalidades de educação: presencial, semi-presencial e a distância. Para o autor, a educação presencial é aquela do ensino convencional e secular, onde os alunos e os professores se encontram regularmente/diariamente, sempre num local físico chamado sala de aula. A educação semi-presencial acontece em parte na sala de aula e noutra parte a distância, através de tecnologias, preponderando a primeira parte. Na educação a distância, fundamentalmente os professores e alunos estão separados fisicamente no espaço e ou no tempo, podendo ter ou não momentos presenciais, interagindo através de tecnologias de comunicação.

No que compete ao perfil do aluno, em 1996 se acreditava que a educação a distância era ideal para jovens e adultos que não tiveram acesso ou não puderam completar estudos no ensino regular, em todos os níveis; crianças e adolescentes submetidos a procedimentos obsoletos de ensino-aprendizagem nas periferias das cidades e no meio rural; e indivíduos carentes de uma requalificação profissional (SOUZA, 1996). Atualmente, consultado os dados do CensoEad.BR (ABED, 2010) ou simplesmente acessando páginas na internet de algumas das mais conceituadas instituições de ensino (e.g. Fundação Getúlio Vargas, Harvard Business School e Universidade de São Paulo) se pode ampliar o público da educação a distância, incluindo: profissionais que buscam ou que são incentivados pelas organizações em que trabalham a buscar uma especialização na sua área de atuação; pessoas que querem adquirir competência não necessariamente relacionadas ao labor; profissionais que almejam ampliar suas qualificações; e aqueles que objetivam possuir maior competitividade no mercado de trabalho.

Na perspectiva da relação aluno-professor, O MEC (2003) lembra que apesar do aluno a distância não contar com a ajuda em tempo integral da aula de um professor, como ocorre no ensino presencial, ele conta com a mediação de professores (orientadores ou tutores), atuando ora a distância, ora em presença física, em encontros previamente organizados. Esses professores, orientadores e tutores, são responsáveis pela organização e entrega dos conteúdos do currículo e acompanhamento, assíncrono ou síncrono, da realização das atividades e do desenvolvimento cognitivo do aluno.

No que se refere ao quesito instrumental-tecnológico, o MEC (2003) relaciona a educação ao uso de sistemas de gestão e operacionalização específicos, assim como ao uso de materiais didáticos intencionalmente organizados, apresentados em diferentes suportes de informação, utilizados isoladamente ou combinados, e veiculados através dos diversos meios de comunicação. Esses meios de comunicação podem ser desde uma simples correspondência impressa, até recursos mais sofisticados como transmissão televisiva ou por rádio, videotapes, videoconferências, softwares educativos, internet etc. (U.S., 2009).
Especificamente em relação à internet, enquanto mídia tecnológico de entrega da educação, ela está presente em 72% dos cursos pesquisados pelo CensoEad.BR (ABED, 2010), ficando ligeiramente atrás do material impresso, uma vez que esse também faz parte dos cursos oferecidos pela internet.

Do ponto de vista legal, para a legislação brasileira a educação a distância “é a modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos” (BRASIL, 2005). Desta maneira, reforçam-se as características apresentadas anteriormente.

A EAD possui no Brasil uma legislação específica estabelecida a partir do Decreto n.º 5.622. Esse Decreto, dentre outros definições, no seu Art. 3º, estabelece que:
§ 1º Os cursos e programas a distância deverão ser projetados com a mesma duração definida para os respectivos cursos na modalidade presencial.
§ 2º Os cursos e programas a distância poderão aceitar transferência e aproveitar estudos realizados pelos estudantes em cursos e programas presenciais, da mesma forma que as certificações totais ou parciais obtidas nos cursos e programas a distância poderão ser aceitas em outros cursos e programas a distância e em cursos e programas presenciais, conforme a legislação em vigor. (BRASIL, 2005).

Os diplomas e certificados de cursos e programas a distância, de acordo com o Art. 5º do mesmo Decreto n.º 5.622, expedidos por instituições credenciadas e registrados na forma da lei, terão validade nacional. Desta forma, para a legislação brasileira, excetuando a forma como o processo de ensino-aprendizagem é realizado, o diploma do aluno egresso de um curso realizado na modalidade educação a distância tem a mesma validade que de um curso realizado presencialmente.

Na percepção da população acerca da qualidade do ensino talvez resida uma das principais diferenças entre a EAD e a educação presencial, supostamente de melhor qualidade. Apesar de não haver uma pesquisa que comprove essa percepção, é comum encontrar depoimentos céticos em relação à qualidade e seriedade dos cursos EAD. Carlini e Ramos (2009) atribuem a má fama da EAD a um senso comum formado em função de experiência equivocadas e que geraram a expressão popular “fez por correspondência” para classificar uma aprendizagem de baixa qualidade, mesmo sendo realizada presencialmente. Maia e Mattar (2007) acreditam que a falta reflexões e de pesquisas em torno do tema EAD, assim como de experiências malsucedidas, seriam, provavelmente, as causas da difamação da imagem da EAD e de sua associação a uma educação de “segunda classe”. Para esses autores, o senso comum e o preconceito formado acerca da EAD em nada têm relação com a sua realidade atual.

Em novembro e 2009, a revista Nova Escola publicou uma reportagem especial sobre a educação a distância. O título da reportagem foi “Vale a pena entrar nessa?” e teve como objetivo de eliminar o preconceito por trás do diploma da EAD, revelando alguns “mitos” e “verdades” (MARTIS; MOÇO, 2009). A seguir, encontram-se as principais conclusões da revista:

É verdade que:
o Os cursos não são adequados aos mais jovens. Necessita-se maturidade e disciplina no estudo.
o Pessoas dispersas (pouco comprometida ou autônoma) apresentam mais dificuldade em acompanhar o curso e obter bom desempenho.
o É preciso ter um bom computador e uma boa conexão de internet.
o As instituições investem mais em tecnologia do que em conteúdo.
o Os professores tutores (que têm contato direto com os alunos) são menos qualificados que os professores presenciais.
o A turma é maior na EAD que na educação presencial.
o É mais difícil conseguir emprego.

É mito que:
o EAD é ideal para quem tem pouco dinheiro. O valor da mensalidade não é o único a ser investido.
o O diploma é fácil. A maior causa de evasão é a falta de tempo para se dedicar aos estudos.
o As avaliações não são difíceis. O nível de exigência das provas é o mesmo das aplicadas nos cursos presenciais.
o A evasão é maior. De acordo com os dados do INEP, a proporção de evadidos da graduação e pós-graduação é 17% na EAD contra 21% na presencial.
o É possível estudar quando quiser. Para acompanhar as discussões é preciso traçar uma rotina diária de estudo.
o O aluno fica isolado e não interage com os colegas. Em quase 95% dos cursos credenciados é possível debater conteúdos e trocar idéias com os colegas.
o A dedicação exigida é menor. Alunos a distância lêem, em média, 3 mil páginas por ano de conteúdo básico estruturado.
o Não é preciso sair de casa. A presença não é obrigatória, mas existem diversas atividades que não são realizadas na frente do computador: avaliações, trabalho em grupo, aulas de laboratório, pesquisas, conferências via satélite etc.
o Os alunos aprendem menos do que no curso presencial. Os resultados do Enade de 2006 não indicam isso. O curso de Pedagogia, por exemplo, obteve melhor resultado na EAD que na modalidade presencial.

A partir do que foi visto, pode-se resumir as seguintes características da educação a distância:
• Separação física da relação professor-aluno e aluno-aluno.
• Tempo e espaço adequados às necessidades e possibilidades de cada sujeito.
• Utilização de mídias diversas como ferramenta instrucional.
• Crescente e preponderante utilização da internet como ambiente de aprendizagem.
• Igualdade à educação presencial no tratamento legal.

O ponto de discussão acerca da qualidade da educação a distância em relação à educação presencial talvez seja um dos mais intrigantes e polêmicos. Em si, o conceito de qualidade é relativo e o julgamento do que seria uma educação de qualidade uma atividade extremamente complicada. Futuramente abordarei o tema da qualidade na educação superior e, especificamente, na educação a distância, pretendendo ajudar na compreensão do seu conceito.

domingo, 20 de setembro de 2009

Eficácia Escolar 3 - Envolvendo pais e comunidade

Fazer as coisas que necessitamos por meio de ferramentas ou técnicas complexas é, sem dúvida, um grande desafio. Entretanto, fazer com que essas mesmas coisas funcionem a partir de elementos simples é um desafio maior ainda. Solucionar com simplicidade é surpreendente.

Um dos maiores desafios das escolas brasileiras, sem dúvida, é a integração com a família e a comunidade. Quando falamos de escolas privadas, há certa terceirização do “problema educação”. Os pais matriculam seus filhos nas escolas caras para esquecerem que existe esse problema. O tempo disponível pelos pais é cada vez menor e, por isso, parece ser uma solução fácil a delegação da educação para as escolas. Quando pensamos em escolas públicas, há uma miscelânea de problemas que vão desde o distanciamento proposital da escola com os pais dos alunos à falta de estrutura para uma devida recepção e acolhimento.

A relação da escola e seu entorno também é complicada, seja no domínio público ou particular. As escolas são elementos de nossa sociedade, interferem e são interferidas pelo contexto geopolítico, mas não conseguem ou não sabem utilizar sua capilaridade como instrumento de desenvolvimento comunitário e convívio pacífico e harmonioso. Não freqüentemente, as escolas são vistas com inconveniência: provocadoras de barulho; obstruidoras do trânsito; ponto de marginalidade; poluidoras do ambiente.

Muitos estudos e programas governamentais e sociais apontam a importância de encurtar a distância das escolas com os pais e a sociedade. As escolas mais eficazes são aquelas que mantêm relações cooperativas com os pais e a sociedade. Sammons, Hillman e Mortimore identificaram que escolas que encorajam a participação dos pais no aprendizado dos filhos e uma boa relação escola-casa afetam significativamente o desempenho dos estudantes, quer seja no ensino fundamental ou no médio. Tizard e outros autores mostraram que o envolvimento dos parentes tem mais efeito no desenvolvimento da leitura que adicionar um professore extra. Outros estudos apontam que a participação dos pais é mais importante em contextos socioeconômicos desfavoráveis.

O mecanismo pelo qual o envolvimento dos pais e da comunidade influencia na eficácia escolar não é muito esclarecido. Há uma especulação plausível que quando os pais e a comunidade têm a mesma (ou similar) expectativa e objetivos em relação à educação dos seus filhos a combinação escola-pais-comunidade se torna um elemento poderoso para que o processo de aprendizagem ganhe força e proporcione melhores resultados.

Cotton, com base em um estudo de diversos autores, sugere as seguintes ações:

1) Comunicar repetidamente para os parentes a importância do envolvimento, independentemente do seu nível de escolaridade.

2) Oferecer aos parentes diversas maneiras de participação e envolvimento.

3) Encorajar fortemente a participação dos parentes em atividades estratégicas para o programa de ensino.

4) Apoiar os parentes com informações e técnicas de como ajudar na aprendizagem dos estudantes.

5) Estabelecer e manter uma freqüente comunicação escola-casa, principalmente no que compete ao progresso dos estudantes.

6) Envolver os membros da comunidade numa rede de relacionamentos relacionada às atividades acadêmicas e sociais da escola.

Um exemplo dessa última ação proposta por Cotton aconteceu neste último sábado, no qual fui envolvido, pela escola de minha filha, numa atividade extremamente simples e altamente eficaz. O convite da escola foi para “empinar pipa”. Os pais deveriam comprar carretéis e a escola entraria com as pipas. Essa foi uma atividade que teve influências em múltiplos campos, a saber: pedagógico; social; ambiental; mercadológico.

Pedagogicamente falando, a atividade proporcionou o desenvolvimento de diversas competências nos estudantes, professores e pais que estiveram envolvidos. Quantas competências são necessárias na construção de uma pipa? Precisa-se de leitura para pesquisar e montar o projeto da atividade. Utiliza-se da matemática para calcular os números e as medidas dos materiais a serem utilizados. Aplica-se a geometria para a definição das formas e diferenciação das pipas. A física é utilizada para explicar as forças necessárias para que a pipa voe e se mantenha estável no ar. Etc.

No campo social, a atividade, realizada no sábado, conseguiu atrair um número grande de pais que, com muita certeza, não iriam se ver ou se relacionar sozinhos. Foi uma oportunidade de conviver mais com os filhos e conhecer pessoas interessantes que, no dia-a-dia, seria impossível. Não bastassem as brincadeiras em torno da pouca habilidade em empinar pipa, os pais discutiam diversos assuntos que iam do futebol à política local.

Do ponto de vista ambiental, o dia escolhido coincidiu com o dia da praia limpa. Como a atividade foi realizada na praia de Lauro de Freitas, os pais foram orientados a levar sacos de lixo para preservar o ambiente. A mobilização também foi importante para formar consciência coletiva da importância de se preservar uma das poucas áreas públicas que a cidade oferece.

Mercadologicamente falando, o evento proporcionado pela escola foi um momento de exposição ao público e de obtenção de feedback para melhoria dos serviços oferecidos. Impossível foi para os transeuntes não ficar admirados com a quantidade de pipas no ar e não identificar a escola que estava proporcionando aquele espetáculo.

Muitas escolas e governos procuram soluções complexas para o envolvimento dos pais e da comunidade com as atividades acadêmicas dos estudantes. Por serem complexas, essas soluções se tornam inviáveis. A simplicidade da solução apresentada pela escola de minha filha, como falei no início, é surpreendente.

sábado, 12 de setembro de 2009

Eficácia Escolar 2 - O surgimento do sucesso

Vou pedir licença ao site imeviolao e publicar trechos da biografia do impressionante Usain Bolt

" Usain Bolt é um corredor Jamaicano que se destacou nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, ao bater os recordes mundial e olímpico dos 100 e 200 metros rasos, levando a medalha de ouro, também, no revezamento 4x100.

Bolt nasceu na cidade de Trelawny, Jamaica, em 21 de agosto de 1986. Foi criado pelos pais, Jennifer e Wellesley Bolt, junto com sua irmã Sherine. Quem o conhece, diz que o seu jeito é despojado e tranquilo.

Sua carreira esportiva começou ainda criança, quando Bolt ganhou o campeonato nacional de críquete, para crianças do primário. Ao começar o seu high school (nível média), na escola William Knibb, o técnico de críquete de Bolt percebeu a sua velocidade de arrancada e sugeriu que ele se iniciasse no atletismo. Usain Bolt teve, então, como técnicos Pablo McNeil e Dwayne Barrett, que o incentivaram a focar no desenvolvimento de suas habilidades atléticas. Nesta época, a escola de Bolt já tinha tradição na área de atletismo, já que atletas como Michael Green se formaram lá.

O primeiro título de Usain Bolt no atletismo aconteceu em 2001, quando ele ganhou a medalha de prata nos 200 metros rasos, com o tempo de 22,04 segundos, tempo 2,34 segundos maior que o recorde feito em Pequim, 2008. A partir daí, Bolt passou a competir nacional e internacionalmente, sempre tendo uma participação de destaque. Em 2002, no Campeonato Mundial de Atletismo Junior, ainda com 15 anos, Bolt ganhou os 200 m com o tempo de 20,61 segundos, o que lhe deu pela primeira vez uma visibilidade em termos mundiais.

Em 2004, tendo como treinador Fitz Coleman, Bolt se tornou uma competidor profissional de atletismo. Nas Olimpíadas de Atenas, Bolt sofreu uma lesão na perna, o que não lhe permitiu ir muito adiante na competição. Neste período, Usain recebeu diversas propostas de universidades americanas para que ele se mudasse para lá, mas o corredor se disse satisfeito em treinar em sua terra natal, e aceitou o convite da Universidade de Tecnologia, na Jamaica.

Então, em 2005, Glen Mills passou a ser o treinador de Bolt. Ambos passaram a treinar fortemente para as competições de atletismo daquele ano. Porém, na maior delas, o Campeonato Mundial em Helsinki, Finlândia, Usain Bolt novamente se contundiu e não conseguiu avançar na competição.

Entretanto, o atleta conseguiu se recuperar e dois mais tarde, no IAAF World Athletics Final, em Stuttgart, na Alemanha, Bolt fez o tempo de 20,1 segundos e levou a medalha de bronze nos 200 metros. Apenas em 2007 Bolt começou a correr os 100 metros rasos em competições, e de cara levou a medalha de ouro com o excepcional tempo de 10,03 segundo, conquistado no 23º encontro da Vardinoyiannia.

Mas a grande fama mundial chegou para Usain Bolt com os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Ter ganho três medalhas de ouro e batidos dois recordes mundiais deram ao atleta uma visibilidade gigantesca."

Neste ano, na Alemanha, Bolt pulverizou mais dois recordes: o dos 100 m (que ficou em 9s58) e os dos 200 m (que ficou em 19s19). Veja um dos fantásticos vídeos dele:

http://www.youtube.com/watch?v=NtRoFpykuOU

Mas para que essa história toda? O que isso tem a ver com Eficácia Escolar?

Na verdade, a biografia de Usain Bolt é um bom exemplo de como se aplica dois dos principais fatores relacionados ao sucesso escolar: Alta Expectativa e Incentivo/Reforço Positivo.

Alta Expectativa

Alta expectativa em relação ao desempenho dos estudantes, principalmente entre os professores e os parentes, é um das principais características de uma escola eficaz. O contrário também é verdadeiro: baixa expectativa em relação ao desempenho dos estudantes está associada a escolas com fraco desempenho.

A expectativa não age diretamente na performance dos estudantes. Ela age por meio das atitudes dos professores em relação aos estudantes e do seu conseqüente efeito sobre a alto-estima dos alunos. Por sua vez, a expectativa é formada por fatores outros que aqueles relacionados com as habilidades e desempenho atuais dos alunos. Professores comumente carregam preconceitos em relação a determinadas características sociais, econômicas e culturais dos discentes. Professores aparentemente têm abaixa expectativa em relação aos alunos mais jovens e àqueles vindos de classes sociais mais baixas. Os professores precisam, neste sentido, monitorar tanto os seus dogmas, princípios e valores quanto o seu comportamento em relação aos alunos para que prevaleça expectativa favorável ao desenvolvimento. Aumentar a expectativa é um processo incremental de sucesso demonstrado. Reforçar o sucesso e não o fracasso dos alunos é uma das estratégias para isso.

Parece haver pouca dúvida que uma das causas para o fraco desempenho dos estudantes está na falha em proporcionar atividades estimulantes e desafiadoras. A expectativa dos professores em relação ao aluno e à classe tem forte influência no conteúdo das atividades e lições desenvolvidas e administradas à turma. Diferentes expectativas em relação aos alunos são traduzidas em diferentes requerimentos para o seu trabalho e sua performance. Expectativa baixa em relação aos alunos se transforma em trabalhos menos complexos e desafiadores e, por sua vez, acarreta desempenho inferior. Por sua vez, alta expectativa configura trabalhos desafiadores e, em conseqüência, desempenho superior dos alunos.

Alta expectativa sozinha não faz milagre. Ela é mais efetiva se operacionalizada em um contexto de forte ênfase no desenvolvimento acadêmico, onde o progresso dos alunos é frequentemente monitorado e onde o ambiente é de ordem e que conduz ao aprendizado.

Incentivo ou Reforço Positivo

Reforço positivo é um elemento importante para a efetividade escolar. Mas, nem toda forma de reforço ou incentivo tem um impacto positivo. Recompensas, outras formas de incentivos positivos e regras claras são mais eficazes em atingir alta performance no desempenho dos alunos do que a tradicional punição.

Na escola eficaz as regras são claramente explicitadas e perfeitamente compreendidas por todos, há disciplina e manutenção da ordem, há reforço consistente da justiça e não há uso da punição. Extremamente importante, o feedback aos alunos é efetivo. Este feedback pode ser imediato, na forma de elogios ou reprimendas, assim como retardado, na forma de recompensas, incentivos e prêmios.

Na jornada de Usain Bolt não houve apenas fatores positivos relacionados ao seu sucesso profissional e como ser humano. Entretanto, é evidente que não lhe faltou reforço positivo de seus professores, treinadores e público admirador. Mais notório ainda é o fato de que se não houvesse uma alta expectativa pelos seus resultados, mesmo quando esses não foram tão favoráveis, ele não teria chegado aonde chegou.

A pergunta que fica é: quantos Usain Bolt são perdidos diariamente por não terem condições mínimas de estímulo e expectativa?


Fontes:

http://imeviolao.googlepages.com/biografia-usain-bolt.html

http://esporte.ig.com.br/mais/2009/08/20/bolt+e+campeao+mundial+tambem+dos+200+m+rasos+7996976.html

http://www.usainbolt.com/

The Key Characteristic of Effective Schools: A review of school effectiveness research. By Sammons, Pam; Hillman, Josh; and Mortimore, Peter.

domingo, 23 de agosto de 2009

Eficácia escolar 1

Houve um tempo em que a escola era vista como uma caixa preta, daquelas onde não se vê o que acontece dentro. Sabia-se que entravam alunos, que lá se dava o processo de ensino-aprendizagem e que, de lá, saiam os profissionais e cidadãos formados em sua plena capacidade. Era verdade que algumas escolas eram melhores e mais tradicionais que outras; que algumas alcançavam certos resultados e outras não. Mas, isso não chegava a ser uma preocupação, pois a escola era para poucos e que, de forma hermeticamente fechada, não permitia intromissões externas. Dava-se graças a Deus por poder estudar e, com isso, diferenciar-se do resto da população que não tinha acesso a qualquer escola: boa ou ruim.

Só que a escola era um bem muito precioso, que não podia ficar nas mãos de uns poucos abastados. O desenvolvimento das sociedades exigiu que mais pessoas estudassem. Um tal de Theodore Schultz, com sua Teoria do Capital Humano, explicou que a educação era um investimento como qualquer outro. Daí para diante, a atenção para a expansão do ensino se tornou preocupações dos governos e das sociedades. Muito dinheiro foi depositado na ampliação da rede escolar para a inclusão da população. Entretanto, a escola continuava sendo uma caixa preta.

A diferença, agora, era que enquanto investimento, a escola não poderia continuar hermeticamente fechada. Quem investe quer maximizar seus lucros e, para isso, tem que compreender o negócio. Dessa maneira, para desvendar a alocação eficiente de recursos na educação, muitos pesquisadores se lançaram na empreitada de desvendar as características das escolas eficazes. Ou seja, começou-se a querer saber a composição de uma escola que realmente faz com que o aluno aprenda.

As primeiras conclusões, mais fundamentadas, não foram nada animadoras. Coleman em 1966 e, mais tarde, Jenk e Smith em 1972 estremeceram o mundo (escolar) com a notícia de que a escola fazia pouca ou nenhuma diferença no desenvolvimento do aluno, dentro da escola, e, mais tarde, na vida profissional. O que fazia enorme influência, para os autores, eram os fatores socioeconômicos que cercavam os alunos.

Depois dessa visão inicial e pessimista da escola, outros pesquisadores (Rutter, Mortimore, Reynolds, Creemers, Firestone…), principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos lançaram-se na tentativa de neutralizar os efeitos do contexto socioeconômico da origem do aluno em seu desempenho e detectar fatores que estivessem potencialmente ligados às escolas eficazes. Além disso, também tentavam identificar aqueles fatores que poderiam melhorar o desempenho de escolas consideradas ineficazes. Heyneman e Loxley, no início dos anos 80, por exemplo, concluíam que, em oposição aos achados nas nações ricas, nas nações de menor renda os fatores escolares contribuíam mais para explicar a variação do desempenho entre os alunos que as diferenças socioeconômicas.

No final dos anos 80, ficou claro aos pesquisadores que as escolas e os professores fazem diferença no desempenho educacional; que a eficiência das políticas depende largamente da maneira como os recursos são empregados; e que fatores de eficácia escolar dependem do contexto escolar, inexistindo soluções universais.

Neste artigo e em alguns outros, que postarei mais adiante, trarei ao nosso debate esse tema: as características da eficácia escolar. Considero de enorme importância o esclarecimento da caixa preta da escola para que maior gerência e controle se possam ter dos recursos que são destinados à educação e dos resultados que recebemos em troca. Trata-se não apenas de saber o que tem uma escola eficaz, mas também como recuperar uma escola deficiente e como deixar o sistema de ensino mais equânime para alunos oriundos de diferentes contextos socioeconômicos.

Antes de encerrar essa primeira postagem gostaria deixar clara a complexidade do assunto. O próprio termo “escola eficaz” não goza de consenso conceitual. O que é uma escola eficaz para uma sociedade pode não ser para outra. Uma escola pode ser eficaz de diversas maneiras: metodologicamente, socialmente, higienicamente, fisicamente, cognitivamente etc. Hitler, por exemplo, implementou inúmeras escolas eficazes (na concepção dele) para a juventude nazista.Para não abrir um debate filosófico sem fim, considero escola eficaz aquela que, em primeiro lugar, consegue agregar competências a todos os seus alunos, independentemente do nível em que ingressaram nela. Exemplificando e explicitando: na escola eficaz o aluno sai com mais (de preferência muito mais) competências do que quando entrou. Em segundo lugar, as escolas mais eficazes ainda, além de agregar competências aos alunos, conseguem eliminar ou amenizar fatores negativos provenientes da inequidade socioeconômica da origem de seus alunos. Exemplificando e explicitando: na escola mais eficaz ainda, além de agregarem competência, a diferença de competências dos alunos tende a diminuir ou zerar, independentemente da origem socioeconômica. Por último, as escolas super-eficazes são aquelas que agregam competência ao aluno, reduzem ou eliminam diferenças e fazem isso com menos recursos.

sábado, 15 de agosto de 2009

Conselhos ao Secretário

Nesta semana, mais precisamente na última terça-feira (11/08/09) assumiu a pasta de Secretário da Educação do Estado da Bahia (SEC) o professor Osvaldo Barreto, da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia. Barreto substitui Adeum Sauer, defenestrado pelo Governador Wagner, após a gota d’água provocada pela tira do Chico Bento publicada pela SEC aos professores (ver figura).

A educação é reconhecidamente uma das principais, senão a principal, forma de superação de nossas mazelas e alcance de uma qualidade de vida melhor para todos os brasileiros. A importância da educação é tão grande que nela está envolvida, direta ou indiretamente, toda a população. É na educação que depositamos nossas esperanças da construção de uma sociedade mais feliz, solidária, saudável, segura e próspera. Por reconhecer essas e outras importâncias da educação, bem com prezar o professor Barreto, assumo o papel de Maomé atrevendo-me a escrever dez conselhos para a sua jornada.

1º) Faça a base para a próxima gestão. Pragmaticamente falando, o novo secretário não terá tempo para fazer grandes mudanças. Aproveite o tempo para conhecer bem a realidade “lamentável” de nossa educação e planejar as transformações para um possível segundo mandato do Governo Wagner. Não há ilusão na educação: qualquer mudança agora só surtirá efeito muito tempo depois. Acalme as bases, faça o diagnóstico e planeje a próxima gestão.

2º) Conheça quem está fazendo algo de bom na educação. Aproveite para viajar para alguns países como a Dinamarca e a Coréia do Sul. Vá também a alguns estados brasileiros como São Paulo e Acre. Recolha desses lugares suas experiências e o que pode ser aproveitado e intercambiado.

3º) Conheça as experiências do passado. Algumas dessas experiências são um verdadeiro fracasso (eleição para diretores, por exemplo). Entretanto muitas são muito boas e merecem um olhar atencioso. Nisto, não cabe ficar apegado às legendas partidárias. Se for necessário, agregue as idéias e os métodos e jogue fora os slogans dos partidos que os promoveram. Seja inteligente ao ponto de não querer reinventar a roda.

4º) Cerque-se de pessoas competentes. Não cometa o mesmo erro de seu antecessor. Recrute superintendentes no mercado, republicanamente. Não coloque ao seu lado, para te aconselhar, sindicalistas. O Brasil tem excelentes empresas e pensadores educacionais. Recrute sua equipe profissionalmente e não politicamente. Quem deve ser político é o secretário, o resto tem de ser profissional.

5º) Dialogue com a política o mínimo necessário. Política e educação não se combinam. Evite apadrinhamento e aparelhamento do Estado. Blinde as escolas e sua equipe da influência nefasta da política e dos políticos. Lembre-se de que escola é para ter aula e não movimento.

6º) Promova a autonomia administrativa, pedagógica e financeira das escolas. A educação acontece na escola e não no prédio da Secretaria da Educação. Nesse sentido, fortaleça a liderança do diretor escolar, repasse mais recursos para as escolas gerenciar, estabeleça contratos de gestão e defina, de maneira clara, os objetivos e metas educacionais que todos devem perseguir.

7º) Aplique todos os seus conhecimentos de administração e economia para diminuir e qualificar a Secretaria da Educação. A SEC deveria ter menos que 1/3 do tamanho que tem hoje. Faça um reordenamento da rede, pois existem muitos funcionários sem função (na SEC) e escolas sem funcionários. Também existem muitas escolas sem professores e professores sem escolas.

8º) Como bom economista, priorize os recursos “escassos” de maneira correta. Ou seja: dê prioridade à educação básica regular. Esse negócio de alfabetização de idosos e profissionalização de quem já não está na idade escolar pode ser politicamente correto, mas não tem tanto efeito para a sociedade quanto um bom ensino básico regular. Agora, nós não temos nenhum nem outro. Garanta a educação básica regular de qualidade e, depois, vá atrás do resto. Não inverta a ordem.

9º) Evite construir escolas. A demanda está, ano após ano, caindo. Escola nova é boa politicamente falando, mas não é isso que precisamos. Precisamos das escolas que já existem: reformadas, bem equipadas e com os profissionais necessários.

10º) Tenha foco permanente no aluno. Tudo que existe na SEC, DIREC e escolas é por causa dos alunos. Desenvolva em sua equipe um senso de missão em função das necessidades e desenvolvimento dos alunos. Não se perca em discussões que não contribuam com o aprendizado do aluno.

Com disse um amigo meu: deveriam erguer uma estátua em homenagem a Chico Bento na entrada do CAB.

Competência o novo secretário!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Problematizando a avaliação 4 - Como avaliar

Como avaliar

Entretanto, para se ter avaliações de aprendizado que possam ser comparativas se entra na discussão do “como avaliar”. Worthen, Sanders e Fitzpatrick afirmam que os vários modelos avaliação desenvolvidos nas últimas três décadas seguem concepções e definições diferentes e, muitas vezes, conflitantes. Os autores identificam três grupos de diferenças entre os modelos de avaliação: orientações filosóficas, predileções metodológicas e preferências práticas.

Os embates filosóficos e ideológicos, para os autores e em acordo com House, são travados em dois eixos. No primeiro eixo estão os modelos de avaliação que vão do objetivismo ao subjetivismo. O objetivismo requer que as informações sejam “cientificamente objetivas”, por meio da utilização de técnicas de coleta e análise de dados que dêem resultados reproduzíveis e verificáveis por outras pessoas. O subjetivismo baseia suas pretensões à legitimidade, onde o saber é concebido como algo tácito em sua maior parte, em vez de explícito. A validade de uma avaliação subjetiva depende da relevância da formação e das qualificações do avaliador, bem como da clareza de suas percepções, que ao método científico.

Noutro eixo, o embate se estabelece entre as abordagens utilitaristas e as institucionalistas-pluralistas. Para as abordagens utilitaristas, o valor estimando se refere ao impacto global de um programa sobre aqueles a quem afeta, onde o maior bem é aquele que vai beneficiar o maior número de pessoas. Nas abordagens institucionalistas-pluralistas, não há um indicador comum de “bem”. O valor se baseia na idéia de valor do cidadão individualmente. Nesse sentido, há uma pluralidade de critérios e juízos.

Para os autores, em relação às preferências metodológicas, essas além de serem extremamente influenciadas pelas correntes filosóficas descritas anteriormente, agrupando-se em dois paradigmas. O primeiro é o da avaliação quantitativa, associado ao paradigma positivista, que afirma que o conhecimento se baseia nos fenômenos naturais e em suas propriedade e relações tal como verificadas pelas ciências empíricas. O segundo é o da avaliação qualitativa, associado ao paradigma construtivista, que afirma que o saber é construído pelo homem e que as realidades não existem objetivamente, pois não existe realidade alguma exceto aquela criada pelas pessoas.

As correntes positivistas e neopositivistas definem como científicas somente as pesquisas baseadas na observação de dados da experiência e que utilizam instrumentos de mensuração sofisticados. Por isso, afirmam que os métodos qualitativos não originam resultados confiáveis. Por outra parte, os teóricos qualitativistas sustentam que os quantitativistas, na medida em que não se colocam no lugar do sujeito, não realizam investigações válidas.


Serapioni faz uma distinção entre os métodos quantitativos e qualitativos:


Métodos qualitativos (fenomenologia e compreensão):


o analisam o comportamento humano, do ponto de vista do ator, utilizando a observação naturalista e não controlada;


o são subjetivos e estão perto dos dados (perspectiva de dentro, insider), orientados ao descobrimento;


o são exploratórios, descritivos e indutivos;


o são orientados ao processo e assumem uma realidade dinâmica;


o são holísticos e não generalizáveis.


Métodos quantitativos (positivismo lógico):


o são orientados à busca da magnitude e das causas dos fenômenos sociais, sem interesse pela dimensão subjetiva e utilizam procedimentos controlados;


o são objetivos e distantes dos dados (perspectiva externa, outsider), orientados à verificação e são hipotético-dedutivos;


o assumem uma realidade estática;


o são orientados aos resultados, são replicáveis e generalizáveis.


Schofield e Anderson complementam a diferença entre os dois paradigmas. A pesquisa qualitativa em geral: 1) é realizada em ambientes naturais; 2) utiliza o pesquisador como o principal instrumento; 3) tende a se concentrar mais nos processos sociais do que principal ou exclusivamente nos resultados; 4) emprega múltiplos métodos de coleta de dados; 5) usa uma abordagem indutiva em relação á análise dos dados. Por outro lado, a pesquisa quantitativa em geral: 1) concentra-se em testar determinadas hipóteses que são partes menores de uma perspectiva teórica mais abrangente; 2) segue rigorosamente o modelo tradicional das ciências naturais, que enfatiza a abordagem experimental e os métodos estatísticos de análise; 3) enfatiza a padronização, a precisão, a objetividade e a confiabilidade da mensuração, bem como a possibilidade de reproduzir e generalizar suas conclusões.


A maioria dos avaliadores contemporâneos vê claramente os métodos quantitativos e qualitativos como abordagens compatíveis e complementares da avaliação de programas. Corroborando esse pensamento, Serapioni afirma que não há contradição entre os paradigmas, ambos estão relacionados às mesmas questões e ambos são apropriados ou inapropriados a depender dos objetivos e característica da investigação.


Em relação às considerações práticas, em primeiro lugar, os avaliadores discordam entre si quanto ao fato do objetivo da avaliação ser ou não um juízo de valor. Em segundo lugar, têm diferentes visões sobre as funções políticas da avaliação. Em terceiro lugar, são influenciados pelas suas experiências anteriores. Em quarto, diferem entre si quanto a quem deve conduzir a avaliação e sobre a natureza dos conhecimentos especializados que deve ter um avaliador sobre o objeto avaliado. Finalmente, os avaliadores diferem se é desejável ou não ter uma grande variedade de abordagens da avaliação.

Problematizando a avaliação

Na ponta desse recorte de discussão teórica acerca da avaliação estão o aluno, o professor e o sistema de ensino. O que é avaliação? Por que avaliar? O que avaliar? Como avaliar? Ao longo dos textos ficou claro que cada tentativa de resposta a uma dessas quatro perguntas leva a dimensões e possibilidades extremamente variadas entre si. Um professor que acredita que a avaliação é uma ação de julgamento de valor e que serve para verificar se o aluno merece ou não ser promovido de ano terá atitudes, instrumentos e método de avaliação completamente diferentes daquele que compreende a avaliação um ato de negociação, subjetivo e de utilidade diagnóstica.


A priori, nessa situação, nos confrontamos com três tipos de problemas difíceis de serem solucionados em conjunto. O objetivo dessa série de artigos, antes de apresentar qualquer solução imediata, é, a partir de um referencial teórico, posicionar as luzes de debates e investigações numa gama de conflitos que estão aparentemente adormecidos.


O primeiro é em relação ao sistema que necessita para o seu funcionamento o mínimo de organização, coerência e compatibilidade. Para solucionar o problema do sistema um caminho seria imprimir regras e procedimentos gerais, onde as partes estariam, dessa forma, “obrigadas” a operarem em acordo umas com as outras? A avaliação individual ou customizada cederia espaço para uma avaliação padronizada? O objeto a ser avaliado e os procedimentos de avaliação seriam os mesmos para todas as escolas? A avaliação levaria em conta questões de contexto, informações de entrada e de saída? O professor assumiria papel de coadjuvante no processo avaliativo, beneficiando-se dos dados diagnósticos uniformizados?


O segundo problema se refere ao professor e suas necessidades, deficiências e autonomia. O professor é ao mesmo tempo instrumento do sistema e um sistema em si. O professor deve seguir regras universais e objetivos comuns e ter os seus próprios, oriundos de suas experiências e das características do seu ambiente de sala de aula. O professor está, dessa forma, no centro do conflito. Para ser justo ele deve ser objetivo em sua avaliação, garantido uma uniformidade de critérios entre os alunos? Ou, ao contrário, ele deve ser subjetivo, explorando as peculiaridades de cada indivíduo que passa por seus cuidados? Qual a coerência e compatibilidade que o professor deve procurar ter entre a sua avaliação da avaliação do professor que veio antes, que virá depois ou da escola vizinha? O professor está apto a avaliar seus alunos em qualquer modelo de avaliação? O que as escolas estão ensinando sobre avaliação aos professores?


O terceiro problema reside no conflito entre os interesses dos alunos, enquanto indivíduos, e da sociedade. Nesse sentido, o interesse do aluno deve ser levado em conta ou o que conta é o interesse da sociedade? Qual a participação do aluno em sua própria avaliação? Em qual medida é permitida ao aluno a avaliação de quem o avalia? Como as características individuais de cada aluno podem ser levadas em conta num processo avaliativo de larga escala? Quem merece melhor julgamento: aquele que alcançou melhor nota ou aquele que agregou maior aprendizado?

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