segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O problema que dá mijar


Calma, caro leitor! Sei que encerrar o ano com esse verbo é estranho. Talvez até um pouco chulo. Eu poderia ter usado outro menos mundano, como urinar, ou mais infantil, como fazer xixi, ou, até mesmo, mais simbólico, como fazer o número-um. O fato é que “mijar” dá o tom certo à problemática que será apresentada e rima bem com o resto do título.

Mas, pensando bem, qual o problema com mijar? Mijar é uma coisa ótima. Talvez uma das melhores coisas que já inventaram. Comparando com o número-dois, uma boa mijada provoca o mesmo alívio, é rápida, não cheira (ou cheira menos) e, principalmente, não mela. Ao mijar, purificamos nosso corpo, pois colocamos para fora tudo que não nos serve mais ou nos serve mal. Mijar é diversão. Quantas vezes, nós homens, já fizemos desenhos na terra com nossos jatos, ao pé de uma árvore protetora ou, até mesmo, na areia da praia. Não sei se alguém já pensou nisso, mas acho que, no limite, mijar pode ser até arte. Já imaginaram uma sinfonia de mijos? Cada integrante com sua contribuição. Uns mais rápidos e graves. Outros mais longos e agudos. Claro, para tocar a Nona Sinfonia de Beethoven precisar-se-iam de umas trezentas pessoas com bexigas bem cheias.

Depois de tantos elogios rasgados – ou mijados – para nosso querido número-um, preciso retomar ao assunto, pois esse post não é de coisas boas e sim dos problemas que uma mijada dá. Acho que não é paranoia minha, pois há notícias de graves problemas desse ato que se repete, em média, seis vezes ao dia por pessoa. E, antes que comecem a me chamar de neurótico ou frustrado, devo registrar, logo de largada, que se o mundo tem em torno de 7 bilhões de pessoas, são, em média, 42 bilhões de mijadas diárias. Volumetricamente, são aproximadamente 17 bilhões de litros de mijo sendo despejados todos os dias. Pois é! Se há tanta mijada e mijo, deve haver muitos problemas relacionados a eles. A seguir, coleciono alguns problemas bem pitorescos que quero compartilhar com você, meu leitor mijador, a partir de duas perspectivas: a pública e a privada.

Do mais amplo ao mais restrito, começo com o problema do mijo na sua dimensão mais pública. Mijar em público ou mijar a torto e a direito pode causar estranheza aos desavisados. Nesse caso, falar de mijo público é, ao fim do dia, falar de Salvador. É público e notório que os pilares dos viadutos de Salvador estão comprometido por anos e anos de irrigação dos baianos da capital. O soteropolitano, por natureza, é um povo sem grandes preocupações de retenção urinária. Ao menor sinal de aperto na bexiga, lá estão eles se aliviando em qualquer esquina, poste, pilar, árvore ou ponto de ônibus. Durante o carnaval de Salvador, não sobra nenhuma parede imaculada. E aquela música que diz “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu” deveria ser “atrás do trio elétrico só não vai quem sabe o que é aquele líquido que não para de escorrer do carro de apoio”. Alguns dos meus amigos ficavam horrorizados ao passarem por pontos de ônibus e se depararem com suspeitos de arma na mão e cara de alívio, fato corriqueiro no traslado diário. Até no campo de futebol, não há aperto. Lembro que meu pai ficava impressionado com a paixão dos torcedores do Bahia e do Vitória ao jogarem copos cheios de cerveja durante a partida. Ele ficava reclamando: “como o povo daqui gosta de jogar dinheiro fora, fica atirando cerveja lá embaixo!”. Coitados dos que estavam na arquibancada inferior, invariavelmente a cerveja chegava quente e sem espuma. Mas, mijar em público não é só coisa de soteropolitano ou de homem. Quem se lembra daquele jogo onde Ronaldinho se agachou peto da bola, ficou um instante parado, deu um sorriso maroto e depois levantou o dedo indicador? Relatoras me informaram que é incrível a quantidade de pipi que as banhistas fazem nas cadeiras de praia pelo Brasil afora. Assim como, andar pelas ruas do Rio de Janeiro sem molhar o pé em uma poça suspeita é quase impossível. Apesar de tudo isso, talvez o pior problema relacionado ao mijo público está justamente nos locais onde ele deveria ser mais sossegado e regrado: os banheiros públicos. De norte a sul, de uma forma geral, os banheiros públicos são um desafio a qualquer apertado, mesmo que seja apenas para o alívio do número-um. Todos nós temos lembranças ruins de banheiros que mal dava para entrar, mas tivemos que usá-los para nos aliviar. Nesse sentido, a pior das minhas experiências ocorreu num banheiro de uma casa de show em Campina Grande, durante o São João. Já sabe, não é? Casa de show lotada, muita bebida e, para completar, o banheiro masculino entupido. O resultado não poderia ser mais catastrófico: para entrar no banheiro – e todos entravam, pois não havia outro lugar – tinha que encarar uma lâmina de água “amarelada” de uns 4 dedos. E, como desgraça pouca é bobagem, ainda tinha um zelador que tentava esvaziar o banheiro com um rodo. Toda vez que ele passava o rodo, gritava: Olha a onda!!! Ai, quem estivesse lá dentro tinha que dá um pulo para não ser atingido pelo tsunami de mijo. Eca! O que a bebida nos proporciona, não é?

Entretanto, os problemas relacionados ao mijo não são só públicos. Cada um de nós tem ou teve um problema particular para recordar. Para alguns, a tarefa de mijar é quase uma tortura fisiológica ou psicológica. E nisso, há situações realmente constrangedoras, do tipo: você está se concentrando para dar uma boa mijada e chega um cara ao seu lado e começa a mijar e emitir sons de gazes inoportunos, seguidos por odores venenosamente sufocantes. Claro que não dá para ficar impassível diante de uma ameaça dessa. Trava-se tudo. Outra situação chata é quando o parceiro ao lado não se contenta em ficar concentrado com o seu instrumento e começa a checar a performance dos outros. Eita coisa desagradável, não é? Igualmente constrangedor é quando quem chega ao seu lado não tem o mínimo de modos e a primeira coisa que faz é dar uma bela cusparada antes de urinar. Nojento demais!!! Mas, a pior situação é quando o seu vizinho não tem boa pontaria e você sente gotículas respingando em seu pé. Dá vontade de contra-atacar, mas os bons modos nos impedem. Há situações também cômicas, quando o pobre coitado não consegue mijar direito e fica fazendo esforço para lançar jatos intermitentes ou então, quando você desafia o oponente na duração e no volume: é uma competição com estratégias certas para vencer e sempre vence quem fica por último. No meu ponto de vista, o pior problema particular é quando, por alguma causa, que só Freud explica, o jato teima em não sair, por mais apertado que você esteja. São situações que ocorrem sem aviso, quando, por exemplo, tem uma fila interminável para usar o banheiro de um bar e, justamente na sua vez, o xixi não sai. Você fica se concentrando, concentrando, concentrando... e nada! Ai tenta diversas técnicas de respiração... e nada! Sempre tem um impaciente na fila que logo reclama e, nesse momento, você apela para o desespero e o suplício: inspira a maior quantidade de ar possível em seus pulmões e coloca toda força no diafragma... e nada! Não tem jeito, você desiste e sai do banheiro para desocupar a moita, vai aguentando a bexiga cheia até outra tentativa mais tarde. Isso pode ocorrer em qualquer lugar e comigo ocorreu no avião. O voo estava para decolar e eu, morrendo de vontade de mijar, pois havia tomado algumas cervejas a mais. Quando o piloto avisou que iria demorar mais 5 minutos para decolar, eu pensei: ótimo, dá tempo! Levantei e, diante dos olhares de desaprovação das aeromoças e da curiosidade da plateia de passageiros, fui direto ao banheiro. Tentei, tentei, tentei... e nada! Naquele momento o que passava em minha cabeça era: paguei o maior mico para fazer esse xixi... e nada! Revoltado e apertado voltei à poltrona. Assim que o avião decolou e estabilizou, tranquilamente me aliviei. São situações incômodas mesmo para uns. Para outros, nada muito complicado. Uma amiga me relatou que, em uma viagem para participar de um congresso, em um país estrangeiro, estava muito frio e nevava bastante. Ela estava hospedada em um hotel sem banheiro no quarto e, como havia tomado vinho e água durante a festa de boas vindas, estava com muita vontade de ir ao banheiro. O frio, a preguiça e o álcool a fizeram ter uma solução inusitada: ela fez xixi num recipiente qualquer que tinha no quarto (nem me pergunte qual foi!) e jogou o líquido pela janela. Tranquila e aliviadamente foi dormir. Pela manhã, ao sai para o congresso, ela olhou para a sua janela pelo lado de fora e viu uma lista amarela que tingia a neve branca do telhado. Ainda bem que, no frio, os odores não são percebidos.

Entre coisas boas e ruins, portanto, caro leitor, apenas posso desejar que em 2013 você dê boas mijadas.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A Lapa de Noel


Foi andando pela Lapa que encontrei Noel. Ele estava meio bêbado, mas me reconheceu. Andamos conversando, entrando e saído de botequins até pousar em um de esquina, bem em frente aos arcos. Sem titubear, ele acendeu seu décimo quinto cigarro desde nosso esbarrão, pediu uma cerveja e começou a cantar e tocar um sambinha em uma caixinha de fósforo. Noel é assim: não usa isqueiro. Cerveja vai, cerveja vem. Falamos de tudo. Noite de lua. Lua bela, grande, que dá para ver de longe. Passamos um tempão falando da Lua. Como ela combina com tudo e, ao mesmo tempo, contrasta. Ela revala o que está oculto e, ao mesmo, tempo esconde as cicatrizes do dia. Mas, com Noel não tem apenas um papo. Têm mil! E naquela noite o papo só foi de reclamação. Noel está velho. É de detestar o que estão fazendo com a Lapa. Isso é uma invasão estrangeira! Resmunga Noel. Veja só. Quantos turistas têm ao redor? Só se houve falar em outras línguas. Noel não tem cerimônia, não faz salinha, vai direto ao assunto. Essa Lapa está morta! Quero minha Lapa de volta. A Lapa dos sambistas, das prostitutas e dos vagabundos! Reclama Noel. Repare, até pichação tem um ar de politicamente correto. Veja essa. Ele pega minha cabeça e a gira para um talude de uma construção. Lá estava escrito: Não se vende o que se tem de melhor para dar! Isso é loucura! Isso é loucura! Reclama mais uma vez Noel. Ninguém dá o que tem de melhor! Como as prostitutas vão dar o que tem de melhor? Se derem, vão morrer de fome! Não só elas, mas todos os cafetões também! É todo um sistema de produção que entra em colapso por causa de uma pichação irresponsável dessas. Noel tem razão, mas a conversa muda de figura numa velocidade maior que dos transeuntes para lá e para cá. A Lapa está invadida! E que porra é essa que estamos escutando agora? Noel me pede silêncio, como se eu é quem estivesse falando. Dá para escutar um ritmo diferente. Maracatu certamente! É isso... Agora aqui virou uma salada. Qualquer coisa vem tocar aqui. Indo mais adiante tem um bar que só entra de preto. Um que só toca rock? Perguntei. É aquela porra mesmo, confirmou Noel. Isso aqui está uma salada. Ninguém é de ninguém. Aliás, todo mundo é deles. Noel apontou para os policiais que montavam guarda ao lado do Circo Voador. O que têm eles, Noel? Não tem nada! É esse o problema, com eles não se tem nada nessa Lapa! A Lapa está sem graça! Tá todo mundo comportadinho. Veja. Ele gira minha cabeça novamente, agora em direção à Praça Cardeal. Lá estavam artistas projetando imagens psicodélicas nas paredes brancas do Arco. Estão pensando que a Lapa é o Woodstok? Ou será que estão querendo fazer da Lapa uma palco para Jean Michel Jarre? Cadê o samba? E aquelas meninas ali? O que tem elas Noel? São mais bonitas que as verdadeiras! Dá para se confundir! Ronaldinho que o diga. Noel é assim: mudou de assunto novamente. Pegou a caixinha e, percebendo que o garçom não lhe dava atenção, cantou: Seu garçom faça o favor de me trazer depressa, uma boa Brahma que não esteja esquentada, um salame fatiado com queijo à bessa, um guardanapo e um copo d’água bem gelado... Bebemos mais algumas e saímos, à luz da Lua – que a Lua é a única de que Noel não reclamou naquela noite –, à procura da Lapa de Noel.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Muita calma nessa hora...


No início desse mês, a Folha de São Paulo divulgou em seu site (http://ruf.folha.uol.com.br/) o Ranking Universitário Folha (RUF). Trata-se de uma tentativa de qualificar e classificar as universidades brasileiras, assim como ocorre em outros países. A metodologia utilizada, baseada em iniciativas internacionais, prevê a pontuação das instituições em quatro critérios: qualidade de pesquisa; qualidade de ensino; avaliação do mercado; e indicador de inovação.

É de se parabenizar a iniciativa da Folha. Colocar a “cara” à tapa em um tema tão espinhoso é para os fortes. Entretanto, é oportuno fazer algumas críticas ao RUF:

1º) É muita pretensão divulgar que as 10 mais bem classificadas universidades pelo RUF são as 10 melhores universidades do país. Ser a mais bem classificada universidade no RUF pode não significar ser a melhor universidade do país. Aliás, qual o critério legítimo para eleger a melhor universidade do país? São muitas as possibilidades para isso, não acham? Quanto mais tentamos dizer o que é uma boa instituição de ensino superior (IES), mais achamos possibilidades e mais temos que fazer recortes e emendas. Uma boa IES pode assumir diversas formas e essas formas podem variar em diversos contextos. Uma boa IES pode ser aquela que simplesmente dá acesso; aquela que consegue produzir bons resultados acadêmicos; aquela que emprega mais seus egressos; ou aquela que melhor satisfaz as políticas públicas. Dessa forma, quem deu o poder à Folha para dizer que o seu critério ranqueia as “melhores” universidades do país? O melhor seria ser menos pretensioso com as manchetes do RUF.

2º) É muita prepotência da metodologia do RUF ignorar os indicadores de qualidade e produtividade produzidos pelo Ministério da Educação sobre o ensino superior. Nesse sentido, é importante se lembrar do trabalho produzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), responsável pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes). Há algum tempo, tal sistema avalia as instituições superiores em três critérios bastante estudados e criticados pela academia: avaliação das instituições, dos cursos e do desempenho dos estudantes. A partir de diversas fontes indubitavelmente mais fidedignas e válidas que as utilizadas pelo RUF, tais critérios produzem indicadores como o Conceito Preliminar do Curso (CPC) e o Índice Geral de Cursos (IGC), os quais servem para a tomada de decisão por parte das próprias instituições avaliadas, da sociedade e do governo. Todo esse arcabouço teórico, metodológico e histórico do Sinaes não serve ao RUF? O melhor seria ser menos prepotente na metodologia empregada pelo ranking da Folha.

3º) O fato de não utilizar indicadores já amplamente divulgados e institucionalizados, como os do Sineaes, é uma escolha. No meu ponto de vista, incorreta, mas é uma escolha. Entretanto, entre os critérios escolhidos pelo RUF (qualidade de pesquisa; qualidade de ensino; avaliação do mercado; e indicador de inovação), parecem-me apresentar, ao menos, dois erros graves. O primeiro é o cuidado ao estabelecer critérios mutuamente excludentes e isso aparentemente os utilizados no RUF não os são. As razões são muitas, mas, por exemplo, dá para imaginar que exista uma forte correlação entre avaliação do mercado e qualidade de ensino. Nesse sentido, bastaria uma instituição ser boa em um critério para ser boa nos outros critérios do ranking. O outro erro é o peso atribuído entre os critérios. Não me parece ser bem justificado o fato da qualidade da pesquisa ter 55% do peso, a qualidade de ensino e a avaliação do mercado 20% (cada) e o indicador de inovação apenas 5%. Quer dizer que produtores (e reprodutores) de artigos são a prioridade do RUF? É por ali que se deve andar a educação superior para a Folha? Produzindo artigo? A inovação merece parcos 5%? Acredito que o sonhado equilíbrio entre ensino, pesquisa e extensão não esteja bem refletido nos pesos atribuídos aos critérios do RUF.

4º) Uma crítica especial se deve ao método empregado no RUF, em três elementos básicos: amostra, instrumento de coleta de dados e escala de pontuação. A amostra variou de critério para critério sendo empregados indicadores qualitativos e quantitativos para a formação de uma escala de pontuação. Como uma escala de pontuação se alimenta de informações quantitativas (ex. publicação por doutor) e qualitativas (ex. percepção pessoal sobre a melhor instituição)? Como garantir uma amostra representativa com 1212 empresários para um número de 237 instituições de ensino superior espalhadas pelo país? Qual o erro? O que significa uma universidade que logrou nota zero em qualidade de ensino, como a Universidade Federal da Paraíba (e muitas outras)? Quer dizer que nessa universidade não há ensino? Quer dizer que o aluno nela não aprendeu nada? O interessante que essa citada universidade é nota 4 (de 1 a 5) no IGC do INEP (de 2010), que leva em consideração, entre outros aspectos, a contribuição da instituição no desenvolvimento cognitivo do aluno. Há muito que melhorar no método do RUF.

5º) Apesar do alarde provocado pela ampla divulgação em um dos maiores jornais do país, o RUF não é suficiente. De que adianta ranquear apenas 237 (aproximadamente 10%) instituições de ensino superior? O que fazer com as outras (90%) instituições? As que ficaram de fora não são merecedoras de comparação? Estão abaixo das ranqueadas ou acima? Os alunos matriculados nelas devem ficar preocupados ou aliviados?

Claro que essa é a primeira rodado do Ranking Universitário Folha. Claro que se deve louvar essa iniciativa, pois, ao fim e ao cabo, é mais um diagnóstico para melhorar a educação brasileira. E, claro que muitas dessas críticas já são previstas e antecipadas por Rogério Meneghini, coordenador do RUF. Mas, se você está pensando em tomar alguma decisão com base nesse ranking... É melhor ter muita calma nessa hora!

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