terça-feira, 25 de agosto de 2015

As imagens e as redes sociais

As redes sociais, dinamizadas pela tecnologia da informação e por aplicativos específicos – como Facebook, o Instagram e o Youtube –, têm modificado a forma como as pessoas se comunicam e se relacionam nos últimos anos. Se, por um lado, estas redes potencializam a criatividade humana e sua forma de se comunicar, por outro, elas permitem a exposição de imagens impactantes, constrangedoras, invasivas e até repugnantes, em uma escala inimaginável. Nesse sentido, deveria haver limites para a publicação de qualquer imagem nas redes sociais?

Essa pergunta não é simples de ser respondida, pois envolve múltiplos aspectos e interesses divergentes, como: a liberdade de expressão; o controle de conteúdo ou censura; a individualidade e a privacidade; a segurança das informações e das pessoas; o uso de imagens com fins políticos ou econômicos; o direito de propriedade, entre outros. Além disso, há de se considerar que a imagem, ao ser divulgada, faz parte de um processo de comunicação complexo, que envolve um emissor, um receptor, um canal, um conteúdo, ruídos e os objetivos ou intenções da comunicação.

Um caso emblemático da capacidade que as imagens veiculadas pelas redes sociais podem gerar constrangimento e repulsa foi o do cantor sertanejo, Cristiano Araújo, morto em acidente de carro. Por um ato de bizarrice fenomenal, o cantor teve a imagem do seu corpo divulgada quando estava sendo preparado para o sepultamento. A divulgação foi supostamente feita pelos profissionais que realizaram o procedimento e ganharam as redes sociais, os noticiários e os inquéritos da polícia. Além do choque com a morte do jovem cantor, a população e, principalmente os familiares, ficaram horrorizados com as cenas e a falta de compaixão dos envolvidos no ato.

Outro exemplo é a divulgação de imagens íntimas de pessoas durante relações sexuais. Está cada vez mais comum escutar no noticiário casos de pessoas – principalmente de adolescentes do sexo feminino – que foram expostas a situações constrangedoras ao terem vídeos e fotos intimas publicadas na Internet. Estes são casos ainda mais complicados, pois muitos deles também estão associados ao crime de pedofilia.

Os exemplos são muitos, variados e sem fronteira: decapitação de prisioneiros pelo Estado Islâmico; bombardeio de escolas e hospitais nas disputas de territórios da Faixa de Gaza; explosões terroristas em mesquitas e locais turísticos; massacre de alunos, professores e funcionário em escolas dos Estados Unidos; ataques de tubarão em praias do litoral brasileiro etc.  Isso tudo apenas relacionando o conteúdo de fotos e vídeos.

Ocorre que nas redes sociais também proliferam e se espalham notícias e informações, muitas vezes confidenciais e igualmente devastadoras para os envolvidos nos assuntos tratados. Só é lembrar do caso do WikiLeaks – onde o governo dos Estados Unidos viu informações secretas suas serem noticiadas mundialmente – e, mais recentemente, do Ashley Medison – site que promove encontros amorosos extraconjugais e que teve seus dados ameaçados de se tornarem públicos por hackers

Esses casos e exemplos seriam suficientes para justificar a implantação de um controle ou limite para publicação de informações e, principalmente, de imagens nas redes sociais? Em minha opinião, não.

Parto do pressuposto que qualquer controle de informação ou censura é antidemocrática. É a imposição do certo ou errado feita por uns poucos para todos os outros e, quando o assunto é censura, toda desconfiança é pouca. Quem serão os iluminados que irão dizer o que o resto da população deve ou não ver publicado nas redes sociais? Quais serão os parâmetros de julgamento desses iluminados? Até onde será considerado aceitável ou não? Essas perguntas são cruciais, pois qualquer resposta a elas nos remeterá aos tempos ditatoriais, os quais o Brasil não quer reviver.

Entendo que, se há plena concordância entre o emissor, o receptor e o dono do conteúdo (imagem) a ser transmitido, não se precisa impor limites às comunicações. Qualquer discordância entre aqueles três agentes é passível de ações punitivas, reparatórias e preventivas. Punitivas, caso haja na imagem veiculadas ou no processo de comunicação qualquer infração à lei. Reparatória, caso a imagem prejudique de alguma forma o seu dono ou qualquer pessoa terceira, sem o seu consentimento. Preventiva, para evitar que casos semelhantes se repitam.

Nos casos descritos, se comprovada a culpa dos emissores, há de impor ações reparatórias para as vítimas e punitivas aos primeiros, com caráter preventivo, para servir de lição e aprendizado, objetivando que casos semelhantes não voltem a ocorrer. Isso quem decidirá será a justiça, munida de informações dos inquéritos policiais. Nunca uma banca de ilustres poderá, em uma sociedade democrática, ocupar o lugar do emissor, do proprietário e do receptor, decidindo por todos eles. Ao fim e ao cabo, nesse tipo de sociedade, eles (os responsáveis pelo processo de comunicação) são livres para escolher o que mostrar e o que ver, assim como responsáveis para assumir as consequências disto.

obs: imagem retirada do site:https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2011/05/15/evasao-de-privacidade/


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Páginas Viradas



Quantas páginas você já virou?

Quanta água já passou?

Quantas pessoas já ficaram?

Pelo caminho que você caminhou

A vida é um livro

Com páginas não numeradas

Com início bem marcado

E fim sempre incerto

Algumas páginas são bem compridas

Noutras só imagem

Fantasias e ilusões

Umas são bem concretas

E em muitas há bobagem

Têm aquelas muito boas

Que quando menos se espera já acabou

Há românticas e apaixonantes

E algumas para a sacanagem

Mas, têm também aquelas ruins

Páginas amargas

Cansativas e entediantes

Que por mais que se leia, insiste em prolongar

Letras, palavras e frases

Infinitas de acabar

Há as páginas marcadas

Que sabemos o que vai ter

Há, porém, as incertas

Em que tudo pode acontecer

Algumas páginas são marcantes

E nos fazem chorar

E têm aquelas eternas

Onde mora a saudade

E onde amor sempre estará

Em algumas delas nós dobramos suas pontas

Para sempre que preciso for, recorrer

São nossas marina, recife e farol

Delas só nos separamos

Para avançar na leitura

Explorar outras páginas

Até não haver mais página para ler

E você?

Quantas páginas você já virou?

E quantas vai virar?

A vida é um livro

De páginas viradas

terça-feira, 21 de julho de 2015

Quarenta!



Estranhamente, acordei no dia 16 de julho da mesma forma como acordara nas noites anteriores. Ainda tinha duas pernas, dois braços, dois olhos e todo o resto do corpo visível. Levantei-me e fui conferir no espelho e notei a mesma cara inchada e amassada de todas as manhãs. A preguiça era a mesma e os bocejos tão frequentes quanto antes. Não contente, despi-me de toda roupa para conferir se tudo permanecia no lugar e no formato habitual. Nada havia mudado, nem para melhor e nem para pior. Se não houve mudança física, então só poderia ter havido mudança mental. Foi a hipótese que veio a minha cabeça.

Fui tomar café pensando nas teorias de aprendizagem e suas derivações para o conhecimento da memória de curto, médio e longo prazo. Fisicamente eu poderia estar o mesmo, mas mentalmente eu já poderia demonstrar algum sinal de mudança, como um Alzheimer, por exemplo. Entre um gole de café e uma mastigada num sanduíche, resolvi fazer um teste comigo mesmo. Quem descobriu o Brasil? Pedro Álvares Cabral. Onde você nasceu? Campina Grande. Qual o nome da sua primeira escola? O Pequeno Príncipe. Qual o nome da primeira rua onde você morou em Salvador? Rua Professor Souza Brito. Qual o nome do chefe que você mais odiou? Silvio. Qual o nome do chefe que você mais amou? Nádia. Onde você mora? Natal. Em que dia sua filha nasceu? 26. O que é um citoplasma? Algo que tem a ver com células, mas que eu não sei ao certo para que serve ou o que faz. Qual o teorema de Pitágoras? O quadrado da hipotenusa é a soma do quadrado dos catetos. Qual a placa de seu carro? Não sei. O que você comeu ontem no almoço? Teve peixe, mas o resto não saberia descrever. Com essa última, concluí que estava tudo normal. De fato, eu era eu mesmo. Inteirinho. Não havia mudado nada. Nem física e nem mentalmente. Isso foi incrível.

Mas, como pode isso? Não mudar nada?

Lembro-me de quando eu era criança e minha mãe estava comemorando os 40 anos dela. Na oportunidade, ela fez uma festa memorável. Foi a primeira e única festa daquele porte que ela proporcionou. Muita gente e muita comida boa, feita por um chef especialmente contratado para o evento. Coisa única mesmo, pois minha mãe costuma assumir o controle da cozinha em tudo. Mas, o fato era que estava tudo muito bom. Naquela noite eu a olhava admirado, contente por estar fazendo parte daquilo tudo e, ao mesmo tempo, preocupado. Preocupado porque, no meu olhar infantil, eu achava que minha mãe estava ficando muito velha. Quarenta anos para mim era algo tão longe, tão inatingível e tão perigosamente assustador que eu não me imaginava chegando a tal idade. Eu não sabia o que viria após os 40 anos. Como cenários sombrios dos personagens malvados dos desenhos animados que eu assistia à época (Esqueleto de He-Man; Mun-Ha de Thundercats), não deveria ser nada bom. Certamente eu não chegaria aos 40. Não só cheguei, como cheguei rápido.

Indo ao trabalho e desfrutando de um transito que ainda se pode filosofar ao dirigir, duvidei da minha conclusão de que nada havia mudado. A comparação não pode ser curta. Não se modifica de um dia para o outro, é um processo lento. A grandeza da comparação deve ser do tamanho da idade, em décadas. Não se compara 40 com 39, mas sim com 30, com 20 ou com 10. Dessa forma sim, comecei a ver grandes transformações. Dos 10 para os 20, além do crescimento físico, mudanças de endereço e de personalidade. De um guri buchudo do interior, para um universitário na capital baiana. Dos 20 para os 30, mudanças de status social, de objetivos e de fisiologia. De um solteiro, duro e devorador inconsequente de calorias, para um casado, endividado e iniciante da busca interminável do bom condicionamento físico (incluindo o peso). Dos 30 para os 40, foi o período do desenvolvimento cognitivo, estabilidade financeira e continuidade genética. Uma filha, uma dissertação e uma tese foram os frutos desse período. Também um período de maior prática esportiva e muitas mudanças geográficas e de emprego.

Pois bem, terminei a minha reflexão filosófica sobre as mudanças, se eram perceptíveis ou não, ao me deparar com o portão de entrada do meu trabalho. Nesse instante, o vigia que me olhava ao passar o crachá e abrir a cancela para o estacionamento me disse: tenha um bom dia de trabalho, senhor. Senhor. Está aí a palavra, um substantivo que qualifica e expressa bem essa mudança. Senhor. Senhor. Senhor.... Antes era moço ou rapaz. Agora é senhor.

Lembrei-me que não deveria ir ao escritório e sim às salas de treinamento, pois deveria participar de um treinamento para saúde, segurança e meio ambiente. Tratava-se de um curso da norma NR-20, para locais onda há estoque de materiais inflamáveis. Ao chegar à sala, deparei-me com uma turma de estagiários. Como havia me transferido de outra unidade, eu era o único empregado que não havia recebido esse treinamento. Além de mim, só os estagiários recém contratados estavam fazendo o curso. Superado o nítido contraste que eu fazia naquela turma de 20 anos, deparei-me com outra evidência das mudanças que o ano provoca. Explicando a necessidade de redundância na avaliação de riscos de qualquer ambiente ou situação, o instrutor fez uma analogia um tanto quanto complicada para o meu estado de espírito daquele dia.

Ele explicou que, quando se trata de segurança, nunca se pode confiar em um único indicador. Ele estava falando de alarmes de incêndio, detectores de fumaça, indicadores de temperatura, mapeamento de riscos e outros mecanismos necessários para garantir a saúde e segurança de todos. Para exemplificar que a redundância é importante, meu colega instrutor lembrou a experiência dele com o temível exame de próstata, quando completara 40 anos. Diante do médico, ele apresentou o resultado dos exames laboratoriais e laudo apontando que sua saúde estava excelente. Pensando que ia ser dispensado do exame de toque, ele foi surpreendido com o médico apontando para uma maca e ordenando que ele retirasse a roupa. Além de nunca ter esquecido das lições de redundância daquele médico e de utilizá-las em suas aulas, ele acabou me alertando para a inevitável e não mais adiável experiência que irei ter.

Fazer 40 é assim: querer manter a potência dos de 20 e o espírito dos de 30, mas já apresentar a necessidade de manutenção dos de 50. 

A conclusão disso tudo é que as mudanças sempre existirão e que não adianta lutar contra elas. Pelo contrário, deve-se tentar aproveitar ao máximo todas as suas fases e felicitar as pessoas que estão ao seu lado. Sua família e seus amigos. Eles também estão passando por isso e irão te ajudar a descobrir o sentido de sua vida.


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