sábado, 25 de abril de 2009

Resultado do ENEM 2008

Como de costume, o Governo Federal divulgou nesta semana as notas do Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM). Exame este que se destina aos alunos egressos do Ensino Médio e aos concluintes desse ensino. O ENEM, que se iniciou em 1998, é voluntário e o seu resultado serve para dois fins: o primeiro é como diagnóstico da qualidade do ensino, tanto para a escola ou rede de ensino quanto para o aluno; o segundo é como critério de seleção de alunos para o Ensino Superior.

Por ser voluntário, o ENEM carrega dois problemas. O primeiro é que quando há poucos alunos fazendo o ENEM em uma escola o resultado da escola não serve estatisticamente como indicador de qualidade daquela escola. O próprio INEP apenas divulga o resultado de uma escola quando, pelo menos, esta escola tiver uma amostra de 10 alunos que participaram do ENEM. O segundo problema é que, mesmo com amostras maiores de 10 alunos, há uma tendência dos melhores alunos fazerem a prova. Existem estudos que demonstram que, quando mais alunos participam, o desempenho médio da escola cai. Neste caso o INEP faz um ajuste (correção da nota por participação) do desempenho das escolas.

Apesar desses problemas o ENEM é muito interessante. Primeiro, ele avalia a competência que o aluno deveria ter ao final do Ensino Médio e não meramente um conjunto de conhecimentos como é usualmente cobrado pelos vestibulares, Brasil afora. Segundo, é uma forma sistemática e democrática de se conhecer a qualidade do ensino. Terceiro, os resultados servem para todo o Brasil, como elo de ligação e comparação. Quarto, o aluno tem seu resultado, facilitando o diagnóstico de suas competências adquiridas e o que ele precisa ainda desenvolver. Quinto, pode substituir com muitas vantagens o vestibular.

Introduzido o ENEM, vamos aos resultados.

O primeiro colocadono Brasil:

“Pelo segundo ano consecutivo, o campeão do ENEM foi o Colégio São Bento, do Rio de Janeiro. A média total obtida pela escola - incluindo a prova objetiva e a redação com correção de participação - foi de 80,58 pontos, em uma escala que vai de 0 a 100. São 30 pontos a mais do que a média nacional divulgada em novembro pelo Inep. Administrado por padres beneditinos, o colégio só recebe alunos do sexo masculino. A mensalidade para o ensino médio varia de R$ 1.616 a R$ 1.752.” (1)

O melhor colocado entre as escolas públicas:

“Entre as escolas públicas, o melhor resultado ficou com o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais. A média obtida pelos alunos foi de 76,66 pontos, o terceiro melhor resultado no ranking geral.”(1)

A maioria dos alunos estão nas piores escolas:

“Escolas que estão abaixo da média nacional do Enem (49,45) concentram 60% dos estudantes que fizeram a prova. Em números absolutos, são 598,6 mil alunos que se formaram em colégios de baixa qualidade. Ficaram abaixo do patamar 11.932 escolas (do total de 19.117).” (1)

As melhores são as escolas privadas:

“Dados divulgados ontem pelo Ministério da Educação apontam que apenas 8% das escolas "tops" do país no ensino médio são públicas. Ainda assim, são unidades de elite do sistema, que fazem seleção para escolher seus alunos. Das 1.917 melhores colégios no Enem (10% do total), apenas 151 são públicas (83 federais).” (1).

A melhor escola da Bahia:

Colégio Helyus de Feira de Santana. Particular e 5º colocado no ranking geral.

A melhor escola de Salvador:

Colégio Anchieta. Particular e 52º colocado no ranking geral.

Melhor escola da Paraíba:

Centro Pessoense de Educação – Col. Motiva. Particular e 129º no ranking geral.

Melhor escola de Campina Grande:

Centro Campinense de Educ Ltda. – Col. Motiva. Particular e 540º colocado no ranking geral.

Veja a classificação de sua escola nesse link:

http://media.folha.uol.com.br/educacao/2009/04/28/enem-ranking.pdf



(1) Folha Online

Existe alternativa ao capitalismo? (3 de 3)

Nova crise mundial: a crise da marolinha

O mundo e, principalmente, o Brasil, ainda não tinham esquecidos os efeitos da crise fiscal dos anos 80 e 90 quando mergulharam numa nova crise.


Essa nova crise, que se originou no centro do capitalismo mundial, teve como estopim o calote de empréstimos imobiliários (subprime) nos Estados Unidos. No início dessa década, havia enorme oferta de crédito e pequenas taxas de juros nos EUA, o que levou muitos estadunidenses a tomarem empréstimo para comprar a casa própria. Com o aumento da demanda por casas e imóveis, surgiu uma bolha especulativa nos preços desses bens. Os novos compradores começaram a financiar a compra de suas casas a preços cada vez mais elevados. Esse ritmo crescente nos preços levou muita gente a vender o imóvel financiado e se endividar em outro, ficando com um troco nessa transação.


Essa farra acabou quando, em agosto de 2007, muitos tomadores de empréstimo não honram com o pagamento de seus financiamentos, pois haviam usado o troco na compra bens de consumo. Os proprietários de casas financiadas viram o valor de seus imóveis despencar, o que não aconteceu com o valor da dívida pelo financiamento destes imóveis. O nível de endividamento cresceu estratosfericamente e a capacidade de honrá-lo não. O resultado foi a queda no valor dos títulos imobiliários e o conseqüente abalo nas contas dos bancos. O momento mais dramático aconteceu em setembro de 2008, com a quebra do Banco Lehman Brothers (até então 4º maior banco de investimento dos Estados Unidos).


A FIEB (2009) entende que essa crise financeira internacional tem como real origem os desequilíbrios macroeconômicos da economia mundial, associados ao modelo de financiamento do enorme déficit em conta corrente do balanço de pagamentos dos Estados Unidos (através de recursos oriundos de petrodólares e das reservas oficiais de países asiáticos) e resume assim as suas principais características:


1) escassez de crédito tanto para os bancos quanto para as empresas, em decorrência da maior aversão global ao risco;
2) aumento dos spreads e encarecimento, de maneira rápida e abrupta, da tomada de recursos de curto e médio prazos nos mercados interbancários;
3) forte queda e maior volatilidade dos mercados acionários de todo o mundo;
4) depreciação das principais moedas do planeta; e
5) queda dos preços das commodities (com destaque para o petróleo, que, em julho de 2008, quase alcançou US$ 150/barril, mas terminou o ano em torno de US$ 40/barril).


Isto impactou diretamente na economia real e na vida de pessoas em todo o mundo, atingindo diretamente o investimento, a produção, o consumo, a renda e o emprego. Pela grande capacitada ociosa, a FIEB entende que setor automobilístico mundial foi um dos mais atingidos, mas que o prejuízo se alastrou indiscriminadamente por todos os setores: Ford (prejuízo de US$ 14,6 bilhões), Citigroup (prejuízo de US$ 18,7 bilhões), NEC (prejuízo de U$ 3,2 bilhões) e Hitachi (prejuízo de US$ 8 bilhões).

No Brasil, empresas gigantes e de escala mundial, como a Vale, teve seu valor reduzido em mais da metade do que era antes da crise. Algumas empresas valiam mais enquanto parque industrial (peças, equipamentos, imóveis e terrenos) do que enquanto papel vendido na Bolsa de Valores de São Paulo.


O gráfico a seguir demonstra essa depreciação dos ativos no setor bancário mundial.

A crise atingiu fortemente o emprego. Só aqui no Brasil, aonde a crise real chegou com alguns meses de atraso, foram perdidos mais de 700 mil postos de trabalho com carteira assinada entre os meses de dezembro de 2008 e janeiro de 2009. A perda foi do tamanho de uma cidade como Aracaju ou João Pessoa. A maior precariedade no emprego teve impacto no processo de migração das classes menos favorecidas para as mais favorecidas, que estava acontecendo nos últimos anos. A classe C, que é a locomotora do país, parou de crescer e teve seu peso relativo reduzido de 52,81% para 52,64%. Consequentemente, o índice GINI, que mede a desigualdade social, que estava suavizando, voltou a se agravar.


Para não afundar ainda mais o nível de emprego e renda do país, o Governo Federal iniciou uma redução, ainda que tímida, da taxa de juros. Além disto, reduziu o IPI na produção de automóveis e em alguns itens de linha branca (geladeiras e fogões). Os efeitos foram imediatos na sustentação do nível de demanda desses produtos. Entretanto, de maneira geral, há uma forte redução do PIB projetado e real. Ainda não há consenso sobre quanto crescerão o Brasil e o Mundo neste ano, mas se sabe que será negativo ou próximo de zero.


Para o Estado, a crise o atinge justam no nível de arrecadação (impostos). Desta maneira, pode-se concluir que é uma nova crise fiscal. O Estado, que passou ou não por um processo de enxugamento nas décadas passadas e que viveu um momento de expansão, nos últimos anos, volta ao centro da questão. Precisa-se de novas reformas que dêem ao Estado um aumento de eficiência sem a elevação de gastos. Na verdade, precisa-se de redução de gastos e, ao mesmo tempo, aumento de investimento para aquecer a economia. Não será fácil.


Os momentos de crise, paradoxalmente, são os melhores momentos para se criticar e os piores momentos para se fazer reformas ou revoluções. Em momentos de crise, não se pensa bem e não se tem muitas escolhas. A hegemonia do capitalismo, neste sentido, é alfinetada, mas, não se tem muita escolha. A pergunta que ainda continua sem resposta é: qual é a alternativa viável fora do capitalismo?


Para Boaventura de Souza Santos, uma das tarefas urgentes consiste em formular alternativas econômicas concretas que sejam ao mesmo tempo emancipatórias e viáveis. Essas alternativas, que não podem ser radicais e que devem conviver com o capitalismo para serem viáveis, devem superar o modelo hegemônico no que ele tem de pior: a produção de desigualdades de recursos e de poder (sejam entre classes sociais, entre etnias, entre gêneros etc.); a alienação da população, precarização das relações pessoais ou sociabilidade empobrecida e meramente baseada em benefícios pessoais e imediatos; e o esgotamento dos recursos naturais.

Fontes:
G1
FIEB
Boaventura de Souza Santos

terça-feira, 21 de abril de 2009

Conversas de aeroporto

Véspera de feriadão de Tiradentes, estava eu esperando meu voo à Salvador, no Aeroporto Tancredo Neves, nos Confins dos Judas, quando sentou no banco inverso ao meu, um pseudo-executivo cheio de parafernálias eletrônicas, entre elas um celular da Nextel – que, não sei porque, virou moda.

Ele chegou e se sentou todo “abafado”, batendo-se em tudo e todos, com suas várias bagagens de mão. Imediatamente ligou o Nextel e começou uma longa, penosa e curiosa conversa com um pobre judas chamado Douglas. Eu, é claro, escutei tudo para florear aqui no blog.

Pichiii (som do Nextel ao se conectar a outro Nextel, entre uma fala e outra)
- Alô, Douglas?
Pichiii
- Douglas, é o Carlos. Tudo bem?
Pichiii
Tudo bem. Tudo Bem. Douglas, quero saber do projeto.
Pichiii
Qual projeto? Do projeto da licitação que te falei.
Pichiii
Tá com problema? Como assim Douglas?
Pichiii
Não deu tempo? Douglas, te mandei o projeto há três semanas.
Pichiii
Não deu tempo, mesmo? Douglas, tá de sacanagem, meu?
Pichiii
Não tá não?
Pichiii
Douglas, você tá querendo casar comigo, é? Tá querendo me fu~…Ü, meu?
Pichiii
Douglas, vamos lá. O que não tá pronto?
Pichiii
Só o orçamento? Menos mau.
Pichiii
O cronograma também não.
Pichiii
Falta a planta baixa.
Pichiii
O sistema de logística também não tá pronto.
Pichiii
Perai, Douglas. Porra meu, pensei que tava trabalhando com gente séria. Vocês são uns irresponsáveis. São uns filhos da mãe!
Pichiii
Agora você tá puto? Puto tou eu, Douglas!
Pichiii
Tá certo meu. Eu sei que não é só culpa tua, mas é foda, meu.
Pichiii
Vai desistir?
Pichiii
O Mário também?
Pichiii
Perai, meu. Tudo tem um jeito.
Pichiii
Já largou fora?
Pichiii
Perai, cara. Se vocês desistirem não tenho tempo para fazer de novo.
Pichiii
Problema meu?
Pichiii
Tô pagando pouco?
Pichiii
Tá bom cara, o que é que você quer que eu faça? A grana é pouca, meu?
Pichiii
Você tá sabendo que eu pago melhor para o Sílvio?
Pichiii
O projeto é diferente, Douglas?
Pichiii
Dê meus pulos?
Pichiii
E a amizade cara?
Pichiii
Enfiar onde?
Pichiii
Douglas? Douglas?

Nesse momento, ele desliga o Nextel, olha para os lados e diz: Porra meu, o êta mundo cão.

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