domingo, 1 de novembro de 2009

ENADE 2009

Exatos 13 anos atrás, estávamos (eu e meus colegas de faculdade), na condição de concluintes do curso de Bacharelado em Administração da Universidade Federal da Bahia, reunidos no portão de entrada do Instituto Central de Educação Isaías Alves Geral (ICEIA). As ruas do Barbalho estavam repletas de estudantes e carros de som que ensaiavam manifestações desconexas. Os líderes da UNE na Bahia, os presidentes dos diretórios acadêmicos e demais representantes estudantis lutavam para que não houvesse a realização do primeiro Exame Nacional de Cursos, mais conhecido como Provão. Apresar da pressão que exerciam em sobre os estudantes, a liderança estudantil não conseguia influenciar totalmente os estudantes, tampouco justificar plausivelmente o porquê boicotar o exame. O principal argumento era que o MEC queria expor os estudantes ao mercado de trabalho, de maneira que as empresas só iriam contratar estudantes mediante apresentação dos resultados do Provão. A história demonstrou que esse argumento estava completamente equivocado.

Mas, no calor das discussões, o fuzuê era grande, assim com as agitações pró e contra exame. Lembro-me bem que quem mais fazia zoada contra eram os representantes de universidades públicas. Justamente quem mais poderia se interessar pelos resultados de tal avaliação. A minha turma também estava imersa nessa panacéia de não realizar o exame. Uns e outros argumentavam a favor de sua realização. Dada a hora do exame, fizemos uma última reunião, parecendo com uma mini-assembléia, verificamos os argumentos e a maioria dos alunos decidiu pelo boicote ao Provão. Pensávamos que, se todos não realizassem o exame, a nota seria anulada. Todos os alunos, com exceção de um, deixaram a prova em branco. Nosso colega boicotador do boicote foi o responsável pela péssima nota que a UFBA recebeu naquele ano.

Passados os anos, vimos que nossa atitude foi inócua e ingênua. O Exame revelou ser um excelente instrumento de controle social e fonte de dados relevantes para o desenvolvimento de políticas públicas, evoluindo ao longo do tempo.

No próximo dia 8 de novembro (domingo) será realizada mais uma etapa do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE). Trata-se de um exame em larga escala composto por questões referentes à formação geral e específica, elaborada com o objetivo de aferir as habilidades acadêmicas e as competências profissionais desenvolvidas pelos seus estudantes ingressantes e concluintes das Instituições de Educação Superior (IES). Nesta etapa, serão avaliados os seguintes cursos:

Bacharelado:

Administração; Arquivologia; Biblioteconomia; Ciências Contábeis; Ciências Econômicas; Comunicação Social; Design; Direito; Estatística; Música; Psicologia; Relações Internacionais; Secretariado Executivo; Teatro; e Turismo

Cursos Superiores de Tecnologia em:

Design de Moda; Gastronomia; Gestão de Recursos Humanos; Gestão de Turismo; Gestão Financeira; Marketing; e Processos Gerenciais.

Para quem tiver curiosidade de saber o desempenho do seu curso, basta acessar o site do INEP (www.inep.gov.br) e pesquisar o resultado por ano. Lembro que o ENADE é repetido para um mesmo curso de três em três anos e que a participação é obrigatória, para que o aluno receba o diploma de conclusão.

Uma coisa interessante do ENADE é que ele proporciona o cálculo do Indicador de Diferença Entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD). O IDD tem o propósito de analisar o desempenho dos concluintes de cada instituição levando em consideração o perfil do estudante que ingressa no curso. O IDD possibilita verificar se o valor adicionado médio pela instituição de ensino superior aos estudantes do curso está acima ou abaixo do que seria esperado (dado o perfil de estudantes que ingressam naquele curso); e o quão distante desse valor médio está o desempenho obtido por cada curso.

Para o cálculo do IDD, o INEP utiliza a média geral do curso, que é composta pela média ponderada das notas das questões do ENADE referentes à formação geral (com peso 0,25) e ao conteúdo específico (com peso 0,75), numa escala que vai de 0 a 100. Do cálculo, subtraindo-se a média dos cursos e dividindo pelo desvio padrão das médias dos cursos por área, resulta em um índice cuja unidade de medida é o desvio padrão. Segundo o INEP (2005), um curso com IDD positivo em 1,5 (um e meio) significa que o desempenho médio dos concluintes desse curso está acima (1,5 unidades de desvios padrão da escala do IDD) do valor médio esperado para cursos cujos ingressantes tenham perfil de desempenhos similares.

Como exemplo, apresento a seguir os cursos de administração da Bahia por ordem de IDD.

Nome da IES

IDD (-3 a 3)

FACULDADE VISCONDE DE CAIRU

1,858

FACULDADE DO DESCOBRIMENTO

1,84

FACULDADE RUY BARBOSA DE ADMINISTRACAO E DE DIREITO

1,8

FACULDADE METROPOLITANA DE CAMACARI

1,756

FACULDADE DO SERTAO

1,597

FACULDADE DE TEIXEIRA DE FREITAS

1,182

UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA

1,18

FACULDADE BATISTA BRASILEIRA

1,149

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

1,043

FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIENCIAS

1,008

FACULDADE SAO SALVADOR

1

FACULDADE SAO FRANCISCO DE BARREIRAS - FASB

0,799

FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIENCIAS DE FEIRA DE SANTANA

0,737

FACULDADE JORGE AMADO

0,696

FACULDADE UNIME DE CIENCIAS SOCIAIS

0,664

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ

0,623

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA

0,597

FACULDADE BAIANA DE CIENCIAS CONTABEIS

0,56

UNIVERSIDADE CATOLICA DE SALVADOR

0,526

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA

0,471

FACULDADE DO SUL DA BAHIA

0,425

FACULDADE DE TECNOLOGIA EMPRESARIAL

0,39

FACULDADE INDEPENDENTE DO NORDESTE

0,374

FACULDADE DE CIENCIAS EMPRESARIAIS

0,223

FACULDADE REGIONAL DE FILOSOFIA. CIENCIAS E LETRAS DE CANDEIAS

0,197

FACULDADE CASTRO ALVES

0,142

FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIENCIAS DE JEQUIE

0,122

FACULDADE SAO CAMILO

0,114

FACULDADE DE GUANAMBI

0,091

FACULDADE ADVENTISTA DE ADMINISTRACAO DO NORDESTE

0,052

FACULDADE SANTISSIMO SACRAMENTO

0,015

FACULDADE SOCIAL DA BAHIA

-0,033

UNIVERSIDADE SALVADOR

-0,17

FACULDADE HELIO ROCHA

-0,256

CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DE ILHEUS

-0,258

FACULDADE JUVENCIO TERRA

-0,296

FACULDADE METROPOLITANA

-0,306

INSTITUTO DE EDUCACAO SUPERIOR UNYAHNA DE BARREIRAS

-0,432

FACULDADES INTEGRADAS IPITANGA

-0,515

FACULDADE SETE DE SETEMBRO

-0,519

ESCOLA DE NEGOCIOS DO ESTADO DA BAHIA - ENEB

-0,763

INSTITUTO BAIANO DE ENSINO SUPERIOR

-0,766

FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIENCIAS DE ITABUNA

-0,784

FACULDADES INTEGRADAS OLGA METTIG

-0,87

FACULDADES INTEGRADAS DO EXTREMO SUL DA BAHIA

-0,927

FACULDADE DOIS DE JULHO

-1,041

INSTITUTO DE EDUCACAO SUPERIOR UNYAHNA LUIS EDUARDO MAGALHAES

-1,082

FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIENCIAS DE VITORIA DA CONQUISTA

-1,13

CENTRO UNIVERSITARIO DA BAHIA

-1,159

FACULDADE REGIONAL DA BAHIA

-1,332

FACULDADE DE CIENCIAS SOCIAIS APLICADAS

-1,437

INSTITUTO DE EDUCACAO SUPERIOR UNYAHNA DE SALVADOR

-1,443

FACULDADE DE ADMINISTRACAO DE JEQUIE

-1,485

FACULDADE DE ARTES. CIENCIAS E TECNOLOGIAS

-1,718

FACULDADE DE ENSINO SUPERIOR DA CIDADE DE FEIRA DE SANTANA

-2,887

sábado, 24 de outubro de 2009

A Invasão

Louis saiu para uma viagem de estudos geológicos por três meses, no sertão. Longe e sem acesso a qualquer tipo de informação, os dias passaram rápidos e sem qualquer alteração no seu curso. Com grande quantidade de material coletado para as suas análises, ele decidiu que já era hora de voltar. Arrumou todo equipamento de sobrevivência e de pesquisa em sua camionete e seguiu viagem pela estrada de terra esburacada. Algumas centenas de quilômetros depois, ele começou a sentir um clima diferente, não natural. Primeiro, Louis não conseguia sintonizar qualquer estação de rádio (AM ou FM). Depois, estranhou que, ao entrar na BR, não havia ultrapassado qualquer carro, caminhão ou moto. Os veículos que se moviam na estrada estavam em direção oposta a de Louis.

Ao fazer uma curva acentuada à direita, na estrada, percebeu uma aglomeração de automóveis sendo bloqueados por uma bateria de tanques e soldados do exército. Ao se aproximar dessa aglomeração, Louis foi orientado por um soldado a encostar o veículo, fechar os vidros e não sair do carro. Ao redor, as pessoas estavam sendo forçadas, pelo exército, a retornar a viagem. Visivelmente em pânico, as pessoas eram retiradas dos veículos, recebiam sob o corpo um pó branco, tomavam uma pílula e um copo d’água. Depois eram confinadas no carro, os quais passavam por uma ducha que não era água. Ao final, eram orientadas a retornar a viagem ao seu destino de origem.

Preso no carro, Louis não pode fazer nada a não ser esperar sua vez.

- Saia do carro, senhor.

Falou grosso um soldado totalmente vestido de branco, com máscara e luvas impermeáveis. Ele portava um fuzil e uma caneca com o pó para jogar sobre as pessoas.

- O que está acontecendo? Perguntou Louis ao sair do veículo.

- Um ataque. Um ataque terrível!

- Que ataque?

- Não estou classificado para falar sobre isso, senhor. Vire-se e feche os olhos.

O soldado pulverizou Louis e orientou que ele entrasse no carro e fosse em direção à ducha para veículos.

Descontente com a resposta do soldado, Louis correu em direção a um oficial, igualmente de branco, que estava com uma prancheta nas mãos. Mas, antes de alcançar o general, Louis recebeu um golpe por trás, que o deixou desacordado por meia hora.

Ao acordar, Louis se viu algemado pelo punho a uma barra de ferro de um dos tanques do exército. Percebendo o despertar de Louis, o oficial com a prancheta se aproximou.

- Qual é o seu nome?

- Louis. Respondeu com dificuldade.

- Sua profissão?

- Geólogo.

- O que você faz por aqui?

- Estou voltando do campo de pesquisa. Preciso chegar ao laboratório da universidade antes que minhas amostras pecam qualidade. O que houve? Porque não posso seguir viagem? O que é esse pó branco que jogaram em mim?

Louis, nesse momento, recuperou-se e começou a esboçar impaciência.

- Então você não sabe? Perguntou o oficial, admirado pela ignorância do geólogo.

- Sabe do que? O que está acontecendo?

- Quanto tempo você ficou nesse campo de pesquisa? Inquiriu o oficial.

- Uns três meses. Por quê?

- Então você não sabe mesmo! Concluiu o oficial, admirado, agora, com o isolamento do geólogo.

- Sente-se, que vou te explicar. Ordenou o oficial, retirando as algemas de Louis.

- Trata-se de uma invasão de alienígena ou de uma terrível mutação genética. É terrível! Tudo começou numa escolinha de crianças. Os relatos que chegaram são assustadores. As crianças dessa escolinha ficaram assustadas com uma menina em particular. Da cabeça dessa menina, de uma hora para outra, começaram a sair centenas de piolhos. Os piolhos caiam por toda a parte: boca, olhos, mãos e pernas. As professoras disseram que os piolhos caiam aos montes. A menina chorava, mas ninguém conseguia ajudá-la. Em questão de minutos, a menina estava soterrada de piolhos que subiam pelas paredes e caiam nas cabeças das outras crianças, professores e funcionários. O pânico foi geral. Todos os funcionários correram da escola, deixando os alunos sozinhos. As mães e pais das crianças foram chamados às pressas.

- A criança do piolho...

- O que tem ela?

- Ela morreu?

- Ainda não sabemos. O que sabemos é que em torno de meia hora depois, o mesmo fenômeno aconteceu com as outras crianças, funcionários e professores da escola. Todos foram empesteados de piolhos que eclodiam dos ovos e se espalhavam pelas casas, ruas, prédios e bairros da cidade. Em dez horas, toda cidade estava contaminada por piolhos.

- Parece que eles têm um ciclo reprodutor mais veloz que o normal? Perguntou o geólogo.

- Não é só isso. Eles têm outro poder. Aparentemente eles conseguem abduzir as pessoas. Falou o oficial, com uma olhar atônito.

- Como assim?

- A partir dessa invasão, as coisas mudaram muito por aqui. As pessoas infestadas com piolhos não tomam providência para eliminá-los. Elas simplesmente convivem com isso e começam a praticar atos nunca antes praticados.

Que tipos de atos, oficial?

- Elas simplesmente ignoram que vivem em sociedade. É estranho! Parecem que aceitam a sociedade, mas no fundo não se comportam de maneira social. O pior é que, a depender do nível de infestação, as pessoas começam a praticar delitos extremamente graves.

- Não estou entendendo? As pessoas sempre praticaram delitos, por isso existe justiça, polícia e todo aparato de repressão do Estado. Não é mesmo? Contra-argumentou o cientista.

- Claro que sim! Mas agora, agora é diferente. É mais subliminar e, paradoxalmente, mais generalizado. É como se fosse um novo comportamento social. Um novo código de regras. Uma nova postura. Um novo Estado. É como se Thomas Hobbes levantasse de sua tumba e reescrevesse um novo Contrato Social. O Contrato deles, dos piolhos!

- Isto está ficando muito surrealista.

- E você ainda não sabe do pior... No primeiro estágio da infestação as pessoas se comportar de maneira diferente do habitual, como eu te falei: começam a praticar e aceitar pequenos delitos. Estacionam seus carros em cima da calçada; furam a fila; subornam funcionários públicos para terem seus pedidos adiantados; invadem áreas públicas para benefícios particulares; jogam lixo pela janela. O segundo estágio é ainda mais aterrorizante. Inicia quando os piolhos chegam à sua maturidade e o seu poder de abduzir é maior. Nesse estágio, os piolhos conseguem se organizar e fazer seus delitos conjuntamente. São manipulações organizadas da sociedade em benefícios deles, piolhos. Leis aprovadas para beneficiar grupos particulares; organizações financiadas com dinheiro público para atacar e destruir interesses produtivos; desvio de dinheiro em obras superfaturadas; juízes comungados com a bandidagem, libertando marginais de colarinho branco etc. O terceiro estágio é o do colapso.

- Assustador!

- No terceiro estágio os piolhos já não conseguem manter sua estrutura de poder e sobrevivência e começam a morrer. Com isso, o sistema deles implode. Temos relatos de policiais roubando ladrões e não socorrendo a população; juízes libertando assassinos confessos; habeas corpus para terrorista e banqueiros inescrupulosos; políticos pegos com dinheiro na cueca e achando isso normal; embaixadas sendo utilizadas por grupos e interesses duvidosos; diretores de estatais filmados aceitando suborno e nada acontecendo com eles; compra de armamentos sem licitação; helicópteros da polícia sendo abatidos como se fossem brinquedos infantis; médicos roubando medicamentos de hospitais públicos e vendendo em clínicas particulares; educadores utilizando outras pessoas para darem suas aulas etc. O fim desse estágio é a volta à época que não existia com Contrato Social: a selvageria, onde a lei do mais forte prevalece.

- E o que acontece quando se chega nesse estágio?

- Não há muito que fazer. Tentamos pulverizar cidades com o pó anti-piolho, mas fracassamos. Tivemos que dizimar a população.

- Como assim?

- Já jogamos a bomba de hidrogênio em cinco cidades.

- O que? Indagou o geólogo abismado.

- Isso mesmo. Dizimamos toda a população do Rio, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte e Recife. Estamos lutando para não fazer isso em outras cidades.

Nesse momento, chega um soldado.

- General?

- Sim soldado?

- Está confirmado. O Congresso Nacional aprovou o aumento do número de vereadores e impediu a CPI dos Sem Terra.

- Sim...

- O QG concluiu que era o último estágio da contaminação e ordenou o lançamento de mais uma bomba. Brasília será dizimada às 19 horas.

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