domingo, 4 de dezembro de 2011

Conversa de uma família sertaneja

Foi numa Topic, entre Delmiro Gouveia e Santana do Ipanema, onde escutei a estória que narro a seguir.

No alto Sertão alagoano, uma viagem de Topic entre duas cidadezinhas muitas vezes revela situações inusitadas. Eu estava sentado na segunda fileira de poltronas e uma família (pai, mãe e filho) estava na fileira logo atrás. No Sertão ainda tem dessas coisas: o homem quando quer casar tem de construir uma casinha de taipa num dos recantos das terras da família. Foi justamente isso o que ocorreu com o jovem rapaz.

Depois de muito esforço, o rapaz havia completado de rebocar sua casa e tentava convencer o pai de que iria casar com Mariazinha. O pai, irredutível, não aceitava o relacionamento, enquanto a mãe só escutava, como toda boa mulher sertaneja.

- Pai, eu já fiz tudo. Tenho a casa e um emprego na loja de moto.
- Não dá filho. No começo eu aprovei seu relacionamento, mas agora está ficando sério demais. Casamento não aceito.
- Mas eu amo Mariazinha!
- Você já sabe. Quando era namoro eu até que aprovava. Mas, você é muito novo e não vai conseguir sustentar uma família.
- Isso o Sr. não pode reclamar. Eu já pago as minhas contas e a casa está pronta!
- Mas, tem os móveis que tem que comprar.
- Eu financio!
- E se você perder o emprego? Essa Mariazinha está no colégio e não trabalha.
- Ela é de uma boa família, Pai!
- Mas, logo embucha!

Depois de muita argumentação de todos os lados, o rapaz começou a querer dar uma de homem e desafiar o desejo do pai, quando aconteceu o inevitável...

- Pai, eu estou decidido. Com sua benção ou não, vou casar com Mariazinha.
- Não vai não! Falou alto o pai.
- Vou sim e o senhor vai ver.
- Não vai, por que Mariazinha é sua irmã!
- Como é que é?

Olhando seriamente para a mulher e para o filho, o pai diz: Mariazinha é minha filha! Eu não ia contar isso nunca. Mas, você foi se envolvendo com ela e não tem outra solução a não ser confessar: eu traí sua mãe uma vez só e Mariazinha é sua irmã.

Fez-se um minuto de silêncio mordido na Topic. O silêncio só foi quebrado com o choro desesperado do rapaz.

- Meu Pai... Como o senhor fez uma coisa dessa... Aaaaahh!!!! Minha vida acabou... Não posso me casar com o meu grande amor... Aaaahhh!!!! Fiz casa, juntei um pouquinho de dinheiro, nada disso adianta... Aaahhhh!!!! Sou um desgraçado... Me apaixonei pela minha própria irmã!!!! Aaaahhh!!!

Nesse momento, a mãe interferiu.

- Tenha calma meu filho!
- Calma como minha mãe??? Não posso casar com Mariazinha!!! Aaaahhhh!!!
- Pode sim!
- Como é que eu posso minha mãe? Mariazinha é filha de meu pai!

Parando um instante, a mãe tomou um fôlego e também revelou um segredo.

- É meu filho... Mariazinha é filha de seu pai. Mas, você não é filho dele não!

Outro silêncio mórbido pairou na Topic. Quebrando o gelo eu falei:

- Ô motor! Para que eu desço aqui!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Educação Financeira

Quando assumi o cargo de professor na Universidade Federal de Alagoas, o professor Lucas me convidou a integrar um projeto de extensão, sob sua coordenação, que objetiva a popularização da educação financeira entre estudantes secundaristas. A ideia é proporcionar a essa população conhecimentos e habilidades para lidar com o dinheiro de forma proativa. Questões como a formação de poupança, as alternativas de investimento, a negociação de dívidas e a realização de projetos a longo prazos são exemplo de assuntos desenvolvidos pelo grupo.
Bem... Depois de muita teoria é normal ficar ansioso para colocar em prática os conhecimentos construídos. E foi com muita sede ao pote que me vi aplicando as orientações de uma boa educação financeira logo no início dessa manhã.
Depois de uma boa ginástica matinal, estava eu esperando o corpo voltar ao normal antes de entrar na pousada onde habito em Santana do Ipanema. Na entrada dessa pousada, há uma pequena galeria de lojas, sendo uma delas uma financeira. Entre um gole e outro de água, veio uma senhora caminhando pela calçada e se posicionando próximo a mim. Como sou um pouco alto, eu deveria ser o dobro do tamanho dela. Essa senhora – uma mistura de índio com negro – deveria ter no máximo 60 anos. Só que o sol do sertão e uma vida sentada no cabo da enxada a deixava com uma aparência de bem mais velha. Nesse momento, travou-se um diálogo:

Senhora: aqui faz empréstimo?
Eu: como?
Senhora: essa loja faz empréstimo? (apontou a senhora para a financeira)
Eu: acho que sim.
Senhora: o Sr. sabe a que horas abre? (eram umas 8 horas da manhã).
Eu: não sei não senhora, mas acredito que nessa rua devem ter outras desse tipo.
Eu: a senhora vai fazer um empréstimo? (comecei a me interessar)
Senhora: vou.
Eu: dizem que quem faz um empréstimo numa loja dessa nunca mais consegue se livrar dele. (joguei verde para ver o que colheria)
Senhora: Deus me livre! Quero pagar logo.
Eu: como é o nome da senhora?
Senhora: Maria.
Eu: pois é dona Maria, dizem que os juros são tão altos que você fica sempre precisando de mais dinheiro, mais empréstimo.
Maria: eu sei, mas com fé em Deus eu vou pagar!
Eu: a senhora está precisando mesmo de empréstimo?
Maria: estou meu filho.
Eu: é para pagar uma dívida ou para comprar alguma coisa?
Maria: é para comprar um terreninho.
Eu: e a senhora não pode juntar (poupar) esse dinheiro?
Maria: não meu filho, tem de ser logo!
Eu: pense bem! É melhor juntar o dinheiro do que ficar enforcada para pagar depois.
Maria: mas, é para que meu filho vá morar nele.
Eu: e ele não pode morar com a senhora por enquanto até que a senhora junte o dinheiro e compre o terreno à vista?
Maria: não. Eu quero que ele vá embora logo! (senti o drama)
Eu: então ele vai embora e a senhora é quem vai ficar com a dívida para pagar?
Maria: é melhor assim!
Eu: pense bem! A senhora pode não conseguir pagar o empréstimo e ter que fazer novo empréstimo e ficar cada vez mais endividada.
Maria: Deus me livre! Já reservei o tanto que posso pagar por mês.
Eu: Quanto é que a senhora pode pagar por mês.
Maria: uns 70 reais. É o que sobra!
Eu. Pense bem! Se a senhora não conseguir pagar?
Maria: Deus há de me ajudar para que eu pague tudo.
Eu: eu sei dona Maria. Mas, se um dia, algo de ruim acontecer – um acidente, uma tempestade, uma doença etc. – e a senhora precisar usar esses 70 reais e não tiver como pagar o empréstimo?
Maria: não, não, Deus vai me ajudar! Eu tenho muita fé em Deus!
Eu: não quero dizer que Deus não vai te ajudar... é que, de vez em quando, a natureza foge do controle e uma eventualidade acontece. Ai a senhora vai se endividar mais ainda. É melhor poupar. A senhora já pens....

Não consegui completar o raciocínio. Dando uma desculpa que iria à farmácia, dona Maria saiu sem nem olhar para trás.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

E o Nordeste? Vem ali atrás!

Bombas caindo na cabeça de Kadhafi, Inter ganhando mais um campeonato internacional, bolsas de valores subindo e descendo (mais descendo que subindo), nova comemoração de gol do R10, Jobs deixando a Apple, Guig-Ghetto lançando o próximo hit do verão baiano... Nenhuma notícia dessa semana deveria ser mais interessante aos pais e às mães que a divulgação dos resultados da Prova ABC (Avaliação de Aprendizagem de Leitura e Matemática) para alunos do 3º ano do ensino fundamental (uma parceria do Todos Pela Educação com o Instituto Paulo Montenegro/IBOPE, Fundação Cesgranrio e INEP).

Algum tempo atrás, eu estava discutindo com a minha esposa qual seria o melhor local para morar. Consideramos três hipóteses de escolha: em um local socialmente favorável (perto dos parentes e/ou amigos); em uma região economicamente favorável (em desenvolvimento e com oportunidades); em uma região favorável à educação (com boa educação para nossa filha). A solução era óbvia: em um lugar que tivesse as três características. Mas, supondo que sejam condições excludentes, qual delas você optaria?

Nesse fim de semana passado, escutei o debate de Eduardo Campos (Governado de Pernambuco) no Canal Livre, da Rede Bandeirantes. Quem escutou ao debate e não conhece a realidade de Pernambuco (e do Nordeste) logo imaginou que o paraíso na Terra é tropical e que lá se dança frevo e se escuta maracatu. O governador bradou o avanço econômico do seu estado, falou da geração de empregos, das novas oportunidades, do combate ao crime etc. Mil maravilhas! Mil maravilhas também no discurso oficial do Governo da Bahia, com o seu jingle insistente na TV e no Rádio, o qual, entre outras coisas, diz: ... é o povo sabendo ler e escrever... De fato, o Nordeste tem avançado se comparado a outras regiões pobres do planeta. Mas, está longe de ser um paraíso na Terra.

Há aproximadamente 10 anos comecei a ter acesso aos dados de avaliações educacionais. Na época, participava de um Programa Educacional que tinha um projeto de avaliação e que produzia relatórios similares ao da Prova ABC. Era normal ficarmos abismados com a precariedade na educação, principalmente na Bahia. Já naquela época, o discurso oficial era da melhoria da qualidade da educação e de eliminação da desigualdade entre os estados brasileiros. Se formos buscar nos arquivos da história, nos anos 90, Paulo Renato e FHC lançaram o FUNDEF justamente para tentar corrigir as imensas disparidades regionais. Antes mesmo do FUNDEF, podemos encontrar a SUDENE e outras tentativas em diversas áreas. Bem... Não quero fazer um relato histórico, apenas apontar que o que o relatório da Prova ABC traz não é novo, assim como não são novos os discursos do governador Eduardo Campos e do jingle do Governo da Bahia.

O Nordeste está atrasado e continuará atrasado por muito tempo se a velocidade do desenvolvimento for essa que estamos vendo. Para se ter uma idéia, em Leitura, o Nordeste é o último colocado e está atrás em 30 pontos do primeiro (o Sul). Em Matemática, o Norte é o mais atrasado, mesmo assim o Nordeste está atrás do Sul em 27 pontos. Para se compreender melhor a diferença, imagine uma corrida de 500 metros disputada em 3 etapas (Ensino Fundamental I, Ensino Fundamental II e Ensino Médio). Na primeira etapa, a garotada do Sul já abriu uma vantagem de 27 a 30 metros para a garotada do Nordeste. Projete qual será a vantagem na última etapa!

Você que mora no Nordeste pode estar pensando aliviado: ainda bem que meus filhos estão matriculados em escolas particulares. Ledo engano! A diferença entre as escolas particulares do Nordeste para as do Sul retrata uma situação ainda pior. Em Leitura, 37 pontos, e em Matemática, 38 pontos. Mas, se você for uma pessoa socialmente responsável e preocupada, vai ficar de cabelos em pé ao saber que a diferença entre as escolas públicas do Nordeste para as escolas privadas do Sul é de 69 pontos em Leitura e de 76 pontos em Matemática.
Volte a imaginar que o prêmio da corrida de 500 metros é uma ótima universidade ou um excelente curso técnico, o que, provavelmente, resultará numa melhor colocação futura no mercado de trabalho. Considerando que em uma sociedade deva haver médicos, engenheiros, economistas, mas, também, arrumadeiras, garçons e garis, preveja agora para quem estará reservada cada uma dessas ocupações.

Entre acreditar no discurso rouge dos governadores nordestinos ou na realidade apontada pelos dados de avaliações nacionais, prefiro imaginar que estar perto da família e dos amigos é o principal motivo para nossa permanência aqui.

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